O poema · Obra

A Bailarina, de Cecília Meireles: o ritmo da brincadeira de roda

Obras · Leitura de 4 minutos

Uma sapatilha de balé gasta sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

A Bailarina é um dos poemas mais decorados do Brasil e circula solto, longe do livro onde nasceu.

Ele está em Ou Isto ou Aquilo, de 1964, um volume com 57 poemas para crianças. A primeira edição saiu com ilustrações de Maria Bonomi e projeto gráfico pensado para a idade de quem ia ler.

O livro tem uma ideia por trás: falar com criança sem rebaixar a língua. A medida do verso é rigorosa, o vocabulário é o de casa, e nenhum poema explica a própria graça.

Os 57 poemas cobrem um repertório inteiro de infância. Nomes próprios que viram música, como em Colar de Carolina e em As Meninas, bicho pequeno, chuva, jardim, sono, e a lista de escolhas que dá título ao volume.

O ritmo da brincadeira de roda

O poema é curto e rimado em pares. As primeiras linhas amarram menina, pequenina e bailarina, e o texto já entra girando.

Depois vem o achado da peça. A escala musical entra como escada de rima:

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

As notas servem de rima e de medida ao mesmo tempo, e a estrofe seguinte repete o formato com mi e fá.

A construção é a da cantiga de roda: verso curto, rima previsível, repetição anunciada e uma ordem de movimento embutida. A criança acompanha antes de entender, porque o corpo entra primeiro.

O som costuma chegar antes do sentido no volume. Em Colar de Carolina a letra C domina a estrofe e obriga a boca a repetir o mesmo gesto, e a criança pega a brincadeira sem saber o nome dela. A escola chama de aliteração, a repetição do mesmo som no começo das palavras, e o poema funciona sem o termo.

No meio do poema o verbo rodar volta três vezes seguidas, e o giro acontece na boca de quem lê. O fim desmonta a cena com uma frase de rotina, quando a menina esquece a dança e vai dormir como as outras crianças.

A obra de Cecília Meireles ainda está protegida por direito autoral, então o poema não é reproduzido inteiro aqui. Entram dois pares de versos para comentário, e o resto é descrição. A edição em catálogo é a da Global Editora, que publica a obra dela no Brasil.

A escolha como tema do livro

O poema que dá nome ao volume trata de uma coisa dura para a idade: escolher custa.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

A estrutura se repete com a luva e o anel, e depois com outros pares que não cabem juntos no mesmo dia.

A forma reforça o conteúdo. A frase se parte em duas metades simétricas, ligadas pela palavra ou, e a simetria mostra no ouvido aquilo que o sentido afirma: as duas metades pesam igual e só uma cabe no dia.

A voz do poema termina sem resolver. Ela passa o dia inteiro escolhendo e segue sem saber qual das duas metades era a melhor.

Livro infantil costuma prometer as duas coisas. Ou Isto ou Aquilo faz o contrário: nomeia a perda que vem junto de qualquer escolha, em verso curto, e devolve a conta para a criança sem enfeitar.

O leilão em que nada tem preço

Leilão de Jardim é um poema de vendedor. Alguém oferece um jardim e vai anunciando os lotes: as borboletas de muitas cores, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, o caracol, um raio de sol, o formigueiro, o sapo que trabalha de jardineiro, a cigarra com a canção dela.

A lista inteira é feita de coisas que ninguém consegue entregar. Raio de sol não se embrulha, cigarra não vem com nota fiscal, e o pregão continua mesmo assim.

O humor está na forma comercial aplicada ao que não se vende. E o efeito prático é outro: cada lote anunciado obriga a criança a olhar o quintal de novo, item por item.

O formato também serve a quem dá aula. Cada lote funciona como pergunta pronta, e a turma consegue continuar o pregão com o que existe na quadra da escola, sem material nenhum.

Por que o livro de 1964 continua na escola

Três coisas seguram o volume em sala de aula depois de sessenta anos.

A primeira é a memória. Os poemas são curtos, rimados e repetitivos, e uma criança de seis anos guarda um deles depois de duas leituras.

A segunda é a voz. Quase todo poema do livro pede leitura em voz alta, com batida marcada, e funciona numa roda de trinta alunos ao mesmo tempo.

A terceira é a matéria. Bicho, chuva, jardim, nome de gente, escolha, sono. Nada ali depende de época, e o livro atravessou seis décadas sem precisar de nota de rodapé para ser entendido.

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A cena continua acontecendo

Numa sala de qualquer casa, uma criança gira de braços abertos até quase cair, para de repente e avisa que não ficou tonta.

Depois senta no chão, pede água e esquece a dança até a próxima vez que alguém ligar o som.

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