O poema · Obra

A Bailarina, de Cecília Meireles: o ritmo da brincadeira de roda

Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 11 minutos

Uma sapatilha de balé gasta sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

A Bailarina é um dos poemas mais decorados do Brasil e circula solto, longe do livro onde nasceu.

Ele está em Ou Isto ou Aquilo, de 1964, um volume com 57 poemas para crianças. A primeira edição saiu com ilustrações de Maria Bonomi e projeto gráfico pensado para a idade de quem ia ler.

O livro tem uma ideia por trás: falar com criança sem rebaixar a língua. A medida do verso é rigorosa, o vocabulário é o de casa, e nenhum poema explica a própria graça.

Os 57 poemas cobrem um repertório inteiro de infância. Nomes próprios que viram música, como em Colar de Carolina e em As Meninas, bicho pequeno, chuva, jardim, sono, e a lista de escolhas que dá título ao volume.

O ritmo da brincadeira de roda

O poema é curto e rimado em pares. As primeiras linhas amarram menina, pequenina e bailarina, e o texto já entra girando.

Depois vem o achado da peça. A escala musical entra como escada de rima:

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

As notas servem de rima e de medida ao mesmo tempo, e a estrofe seguinte repete o formato com mi e fá.

A construção é a da cantiga de roda: verso curto, rima previsível, repetição anunciada e uma ordem de movimento embutida. A criança acompanha antes de entender, porque o corpo entra primeiro.

O som costuma chegar antes do sentido no volume. Em Colar de Carolina a letra C domina a estrofe e obriga a boca a repetir o mesmo gesto, e a criança pega a brincadeira sem saber o nome dela. A escola chama de aliteração, a repetição do mesmo som no começo das palavras, e o poema funciona sem o termo.

No meio do poema o verbo rodar volta três vezes seguidas, e o giro acontece na boca de quem lê. O fim desmonta a cena com uma frase de rotina, quando a menina esquece a dança e vai dormir como as outras crianças.

A obra de Cecília Meireles ainda está protegida por direito autoral, então o poema não é reproduzido inteiro aqui. Entram dois pares de versos para comentário, e o resto é descrição. A edição em catálogo é a da Global Editora, que publica a obra dela no Brasil.

A conta das sílabas, feita na mão

Poema de roda parece solto e não é. A medida está lá, e dá para conferir com os dois versos citados acima, sem manual nenhum.

A regra da contagem em português tem três detalhes. Conta-se por sílaba de som, não por sílaba de escrita; a contagem para na última sílaba forte do verso, e o que vem depois dela não entra; e duas vogais que se encontram entre palavras costumam se juntar numa emissão só.

Aplique no verso das notas musicais. Não, co, nhe, ce, nem, dó, nem, ré: oito sílabas, e a última é forte, então o verso mede oito.

Agora o verso da resposta. Mas, sa, be, fi, car, na, pon, ta, do, pé: dez sílabas, com a força no fim outra vez, então o verso mede dez.

Os dois não medem igual, e o par funciona assim mesmo. O que amarra a dupla não é o número de sílabas, é a rima forte no fim e a força caindo sempre na última posição.

O efeito prático aparece na boca. Um verso curto seguido de um mais longo produz a batida de balanço da cantiga, o mesmo desnível que faz criança marcar o compasso com o pé sem ninguém pedir.

Vale o teste em casa: leia o par batendo palma só nas sílabas fortes. A palma cai no lugar certo nos dois versos, e a diferença de tamanho vira gingado em vez de erro.

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A escolha como tema do livro

O poema que dá nome ao volume trata de uma coisa dura para a idade: escolher custa.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

A estrutura se repete com a luva e o anel, e depois com outros pares que não cabem juntos no mesmo dia.

A forma reforça o conteúdo. A frase se parte em duas metades simétricas, ligadas pela palavra ou, e a simetria mostra no ouvido aquilo que o sentido afirma: as duas metades pesam igual e só uma cabe no dia.

A voz do poema termina sem resolver. Ela passa o dia inteiro escolhendo e segue sem saber qual das duas metades era a melhor.

Livro infantil costuma prometer as duas coisas. Ou Isto ou Aquilo faz o contrário: nomeia a perda que vem junto de qualquer escolha, em verso curto, e devolve a conta para a criança sem enfeitar.

O leilão em que nada tem preço

Leilão de Jardim é um poema de vendedor. Alguém oferece um jardim e vai anunciando os lotes: as borboletas de muitas cores, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, o caracol, um raio de sol, o formigueiro, o sapo que trabalha de jardineiro, a cigarra com a canção dela.

A lista inteira é feita de coisas que ninguém consegue entregar. Raio de sol não se embrulha, cigarra não vem com nota fiscal, e o pregão continua mesmo assim.

O humor está na forma comercial aplicada ao que não se vende. E o efeito prático é outro: cada lote anunciado obriga a criança a olhar o quintal de novo, item por item.

O formato também serve a quem dá aula. Cada lote funciona como pergunta pronta, e a turma consegue continuar o pregão com o que existe na quadra da escola, sem material nenhum.

O poema é feito de negativas

Repare no que o texto informa sobre a menina. Quase tudo chega pela negação: ela não conhece as notas, não sabe os passos, não aprendeu o que a dança exige.

A afirmação sobra para uma coisa só, o ficar na ponta do pé. Uma habilidade de pé contra uma lista de faltas, e a conta continua favorável a ela dentro do poema.

A escolha é técnica, não é ternura. Descrever por falta obriga o leitor a montar a imagem da bailarina completa para depois subtrair, e a menina aparece com muito mais nitidez do que se o poema listasse virtudes.

O recurso atravessa o livro inteiro. Em Ou Isto ou Aquilo o assunto é justamente o que não cabe junto, e o poema da bailarina aplica a mesma lógica a uma criança que dança sem saber dançar.

Para quem lê com criança, a pergunta que abre a conversa é direta: o que ela não sabe fazer, e por que continua sendo bailarina mesmo assim.

Linha do tempo de Cecília Meireles

  1. 1901Cecília Meireles nasce no Rio de Janeiro, em 7 de novembro.
  2. 1919Publica Espectros, o primeiro livro, ainda na adolescência tardia.
  3. 1939Viagem recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, numa premiação que gerou polêmica pública.
  4. 1953Sai Romanceiro da Inconfidência, o ciclo de poemas sobre a conjuração mineira que virou a obra mais estudada dela.
  5. 1964Ou Isto ou Aquilo chega às livrarias, com 57 poemas para crianças e ilustrações de Maria Bonomi.
  6. 1964Cecília Meireles morre no Rio, em 9 de novembro, dois dias depois de completar 63 anos.
  7. 2035A obra dela entra em domínio público, pela contagem de setenta anos a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte, prevista na lei brasileira de direito autoral.

Por que o livro de 1964 continua na escola

Três coisas seguram o volume em sala de aula depois de sessenta anos.

A primeira é a memória. Os poemas são curtos, rimados e repetitivos, e uma criança de seis anos guarda um deles depois de duas leituras.

A segunda é a voz. Quase todo poema do livro pede leitura em voz alta, com batida marcada, e funciona numa roda de trinta alunos ao mesmo tempo.

A terceira é a matéria. Bicho, chuva, jardim, nome de gente, escolha, sono. Nada ali depende de época, e o livro atravessou seis décadas sem precisar de nota de rodapé para ser entendido.

Como conduzir uma roda de leitura com o poema

O texto aguenta trinta crianças ao mesmo tempo, e a condução muda o resultado mais do que a escolha do poema.

Leia inteiro uma vez antes de explicar qualquer coisa. A primeira audição precisa chegar como música, e comentário adiantado transforma o poema em exercício.

Na segunda leitura, peça a palma só nas sílabas fortes. A turma acha a batida sozinha em duas ou três tentativas, e quem não lê ainda participa igual.

Divida as estrofes em vozes. Metade da roda diz o verso das notas musicais, a outra metade responde, e a alternância segura a atenção de quem se perde em texto longo.

Depois da leitura em vozes, uma pergunta só resolve a conversa: o que a bailarina do poema não sabe fazer. A lista sai da própria turma, e a leitura vira interpretação sem virar aula de gramática.

Feche voltando ao livro. Leilão de Jardim funciona como continuação natural, porque a criança já entendeu que ali se anuncia o que não se vende, e o pregão continua no pátio da escola sem material nenhum.

Uma advertência prática: não peça decoração obrigatória. A criança guarda o poema por repetição prazerosa, e a cobrança de memória costuma matar o texto que ela já tinha guardado.

A cena continua acontecendo

Numa sala de qualquer casa, uma criança gira de braços abertos até quase cair, para de repente e avisa que não ficou tonta.

Depois senta no chão, pede água e esquece a dança até a próxima vez que alguém ligar o som.

Perguntas frequentes

Quem escreveu A Bailarina?

Cecília Meireles. O poema está em Ou Isto ou Aquilo, livro de 1964 com 57 poemas para crianças, publicado no mesmo ano da morte da autora. Ela nasceu no Rio em 1901 e morreu no Rio em 1964.

Qual é o tema do poema A Bailarina?

Uma menina que quer ser bailarina e não conhece nem as notas musicais nem os passos, mas fica na ponta do pé e roda. O texto trata do desejo de dançar antes de saber dançar, e termina com a menina indo dormir como qualquer criança.

Para que idade o livro é indicado?

A faixa de alfabetização responde bem, dos cinco aos nove anos, porque os versos são curtos, rimados e fáceis de guardar. O volume também roda em turma mais velha quando o trabalho é de leitura em voz alta e de contagem de sílabas.

O poema pode ser copiado inteiro num trabalho de escola?

A obra de Cecília Meireles segue protegida por direito autoral até 2035, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte. Citar trechos com crédito para estudo é uso aceito; reproduzir o poema inteiro em material distribuído exige autorização da editora.

Quais são os outros poemas famosos do livro?

Ou Isto ou Aquilo, que dá nome ao volume e trata do custo de escolher, Leilão de Jardim, que anuncia à venda o que não se vende, Colar de Carolina, montado na repetição da letra C, e As Meninas, que transforma nomes próprios em música.

Quantas sílabas tem cada verso do poema?

A medida não é fixa. Os dois versos citados nesta página medem oito e dez sílabas poéticas, contadas até a última sílaba forte, e a alternância entre verso curto e verso longo é o que produz o balanço da cantiga de roda.

Qual edição comprar?

A obra infantil de Cecília Meireles está em catálogo pela Global Editora, que publica a autora no Brasil. Biblioteca pública municipal costuma ter exemplar do volume na estante infantil, e a edição ilustrada é a que funciona melhor para leitura com criança pequena.

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