O poema · Obra

O Corvo: a engenharia que Poe declarou antes do primeiro verso

Obras · Leitura de 5 minutos

Uma aldrava de porta de latão gasta sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

O Corvo saiu em 29 de janeiro de 1845, no jornal Evening Mirror, de Nova York. No ano seguinte, na Graham's Magazine, Edgar Allan Poe publicou um ensaio contando como tinha montado o poema, peça por peça.

O ensaio se chama The Philosophy of Composition, a Filosofia da Composição, e o que ele descreve não é inspiração. É uma sequência de decisões técnicas, tomadas antes do primeiro verso existir.

Poe morreu em 1849, e tanto o poema quanto o ensaio estão em domínio público há muito tempo. Dá para conferir cada afirmação no próprio texto dele.

O som veio antes do poema

A primeira decisão do ensaio é sobre o refrão. Poe queria uma palavra que fechasse toda estrofe e aguentasse ser repetida sem cansar.

Para chegar nela, ele escreve que foi atrás do som primeiro: o o longo, a vogal mais sonora, junto do r, a consoante mais fácil de emitir. A palavra que atendia o som e o tom melancólico apareceu em seguida, e Poe diz que foi a primeira que lhe ocorreu.

Quoth the Raven "Nevermore."

Repare na ordem. O som foi escolhido, depois a palavra que carrega o som, depois a história que justifica a palavra voltar. O poema nasceu de trás para frente.

O tamanho foi decidido com régua

A segunda decisão é o comprimento. Poe queria uma peça que se lesse de uma sentada, porque a leitura interrompida quebra o efeito que ele estava perseguindo.

Ele fixou a medida em torno de cem versos, e o ensaio confere a conta em seguida: o poema tem cento e oito. A régua veio antes do texto, e o texto coube nela.

Um bicho que fala sem pensar

A terceira decisão resolve um problema prático. Uma pessoa repetindo a mesma palavra a cada estrofe soa como defeito, porque pessoas escolhem o que dizem.

Poe conta que pensou primeiro num papagaio, e trocou o papagaio pelo corvo, capaz de falar do mesmo jeito e muito mais afinado com o tom que ele queria. O bicho responde sempre a mesma coisa porque não entende a pergunta.

Falta o assunto. Poe afirma no ensaio que a morte de uma mulher bela é o tema mais poético do mundo, e que a boca mais adequada para tratar dele é a de um amante enlutado. Estão dadas as duas peças que o poema encaixa: alguém perguntando de Lenora e um bicho respondendo sempre a mesma palavra.

Ele ainda declara que escreveu primeiro a estrofe do clímax, a pergunta decisiva, e só depois montou o resto em volta.

Há quem leia a Filosofia da Composição como reconstrução feita depois, mais demonstração de método do que diário de trabalho. A leitura é razoável e não muda o essencial: as peças que Poe descreve estão todas no poema.

As traduções em português que já são livres

Tradução tem direito autoral próprio, mais novo que o do original. Poe estar em domínio público não libera qualquer versão em português, e o que decide a cópia é a data de morte do tradutor.

Três estão em domínio público. Machado de Assis traduziu o poema em 1883, e a versão foi recolhida em Ocidentais, dentro das Poesias Completas publicadas no Rio pela Garnier, em 1902. Emílio de Meneses publicou a dele em 1917. Fernando Pessoa publicou a sua em 1924, na revista Athena, em Lisboa.

Machado morreu em 1908, Emílio de Meneses em 1918 e Pessoa em 1935. As três podem ser copiadas e ditas em voz alta sem licença. Traduções recentes, mesmo as excelentes, seguem protegidas.

A versão de Pessoa vem com uma declaração impressa logo abaixo do título, na Athena de 1924: tradução ritmicamente conforme com o original. Ele assumiu o compromisso de reproduzir a batida do inglês, e a primeira estrofe mostra o resultado, aqui com a grafia atualizada.

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Machado trabalhou de outro jeito. Ele encurtou e alongou os versos, montou estrofes de dez linhas e abriu mão da batida do inglês. Há estudo defendendo que ele traduziu a partir da versão em prosa francesa de Baudelaire, e não direto do original.

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,

O que Nevermore perde e o que Nunca mais recupera

Poe construiu o poema inteiro em cima do som or. Em português não existe palavra que signifique "nunca mais" e termine nesse som, então a peça central da engenharia se perde na travessia.

As duas traduções tomam a mesma decisão e caem em Nunca mais, que termina em outro som.

Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo disse: "Nunca mais."

O que Pessoa faz em seguida é o interessante. Ele transforma o ais na rima de todo o poema: ancestrais, umbrais, celestiais, iguais, sinais, fatais. Machado fecha cada estrofe em mais, também. O som escolhido por Poe muda, e o princípio dele sobrevive: uma única sonoridade volta a cada estrofe, e o leitor passa o poema todo esperando por ela.

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Em casa, o teste é simples e não custa nada. Leia a estrofe de Pessoa em voz alta uma vez, depois a de Machado, e repare em que ponto a sua respiração pede para parar. As duas contam a mesma noite, e nenhuma delas soa igual.

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