O poema · Obra
O Corvo: a engenharia que Poe declarou antes do primeiro verso
Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 12 minutos

Neste artigo
- O som veio antes do poema
- O tamanho foi decidido com régua
- Um bicho que fala sem pensar
- A estrofe é uma máquina de seis linhas
- Linha do tempo do Corvo
- As traduções em português que já são livres
- O que Nevermore perde e o que Nunca mais recupera
- Como dizer O Corvo em voz alta sem cansar quem ouve
- O que a Filosofia da Composição não prova
- Perguntas frequentes
O Corvo saiu em 29 de janeiro de 1845, no jornal Evening Mirror, de Nova York. No ano seguinte, na Graham's Magazine, Edgar Allan Poe publicou um ensaio contando como tinha montado o poema, peça por peça.
O ensaio se chama The Philosophy of Composition, a Filosofia da Composição, e o que ele descreve não é inspiração. É uma sequência de decisões técnicas, tomadas antes do primeiro verso existir.
Poe morreu em 1849, e tanto o poema quanto o ensaio estão em domínio público há muito tempo. Dá para conferir cada afirmação no próprio texto dele.
O som veio antes do poema
A primeira decisão do ensaio é sobre o refrão. Poe queria uma palavra que fechasse toda estrofe e aguentasse ser repetida sem cansar.
Para chegar nela, ele escreve que foi atrás do som primeiro: o o longo, a vogal mais sonora, junto do r, a consoante mais fácil de emitir. A palavra que atendia o som e o tom melancólico apareceu em seguida, e Poe diz que foi a primeira que lhe ocorreu.
Quoth the Raven "Nevermore."
Repare na ordem. O som foi escolhido, depois a palavra que carrega o som, depois a história que justifica a palavra voltar. O poema nasceu de trás para frente.
O tamanho foi decidido com régua
A segunda decisão é o comprimento. Poe queria uma peça que se lesse de uma sentada, porque a leitura interrompida quebra o efeito que ele estava perseguindo.
Ele fixou a medida em torno de cem versos, e o ensaio confere a conta em seguida: o poema tem cento e oito. A régua veio antes do texto, e o texto coube nela.
Um bicho que fala sem pensar
A terceira decisão resolve um problema prático. Uma pessoa repetindo a mesma palavra a cada estrofe soa como defeito, porque pessoas escolhem o que dizem.
Poe conta que pensou primeiro num papagaio, e trocou o papagaio pelo corvo, capaz de falar do mesmo jeito e muito mais afinado com o tom que ele queria. O bicho responde sempre a mesma coisa porque não entende a pergunta.
Falta o assunto. Poe afirma no ensaio que a morte de uma mulher bela é o tema mais poético do mundo, e que a boca mais adequada para tratar dele é a de um amante enlutado. Estão dadas as duas peças que o poema encaixa: alguém perguntando de Lenora e um bicho respondendo sempre a mesma palavra.
Ele ainda declara que escreveu primeiro a estrofe do clímax, a pergunta decisiva, e só depois montou o resto em volta.
Há quem leia a Filosofia da Composição como reconstrução feita depois, mais demonstração de método do que diário de trabalho. A leitura é razoável e não muda o essencial: as peças que Poe descreve estão todas no poema.
A estrofe é uma máquina de seis linhas
O poema tem dezoito estrofes de seis versos, e as seis linhas não são iguais entre si. As cinco primeiras são longas, e a última é curta, quase metade do tamanho.
A queda no fim da estrofe não é acaso de composição. O verso curto é onde o refrão mora, e a diferença de tamanho faz a palavra cair como um degrau que falta.
O andamento é o mesmo do começo ao fim: sílaba forte, sílaba fraca, repetido. Os manuais de literatura inglesa chamam a batida de octâmetro trocaico nos versos longos, e o verso final vem em tetrâmetro catalético, cortado antes de completar o último pé.
Dentro do primeiro verso de cada estrofe existe ainda uma rima que ninguém precisa procurar, porque ela chega antes do fim da linha. É a rima interna, que Poe usa para amarrar a metade da frase à outra metade.
O esquema de rima externa concentra tudo num som só. Numa estrofe de seis linhas, três delas terminam no mesmo som do refrão, o que faz o ouvinte esperar a palavra bem antes de ela ser dita.
Poe escreve na Filosofia da Composição que nenhuma dessas peças é invenção dele. O que ele reivindica é a combinação: cada elemento já existia solto na tradição, e o poema junta todos numa estrofe que ninguém tinha montado assim.
Vale a conferência, porque é a parte verificável do ensaio. As peças que ele descreve estão todas no texto de 1845, contáveis linha a linha por qualquer leitor.
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Linha do tempo do Corvo
- 29 de janeiro de 1845O poema sai no Evening Mirror, de Nova York, assinado por Poe.
- Fevereiro de 1845A American Review publica o mesmo texto assinado por Quarles, um pseudônimo, na edição do mês.
- Abril de 1846A Graham's Magazine publica The Philosophy of Composition, o ensaio em que Poe descreve a montagem.
- 7 de outubro de 1849Poe morre em Baltimore, aos quarenta anos.
- 1875Sai em Paris a tradução francesa em prosa feita por Stéphane Mallarmé, com ilustrações de Édouard Manet.
- 1883Machado de Assis publica a tradução dele em português.
- 1884Uma edição ilustrada por Gustave Doré chega às livrarias, um ano depois da morte do ilustrador.
- 1917Emílio de Meneses publica a versão dele.
- 1924Fernando Pessoa publica a sua na revista Athena, em Lisboa.
As traduções em português que já são livres
Tradução tem direito autoral próprio, mais novo que o do original. Poe estar em domínio público não libera qualquer versão em português, e o que decide a cópia é a data de morte do tradutor.
Três estão em domínio público. Machado de Assis traduziu o poema em 1883, e a versão foi recolhida em Ocidentais, dentro das Poesias Completas publicadas no Rio pela Garnier, em 1902. Emílio de Meneses publicou a dele em 1917. Fernando Pessoa publicou a sua em 1924, na revista Athena, em Lisboa.
Machado morreu em 1908, Emílio de Meneses em 1918 e Pessoa em 1935. As três podem ser copiadas e ditas em voz alta sem licença. Traduções recentes, mesmo as excelentes, seguem protegidas.
A versão de Pessoa vem com uma declaração impressa logo abaixo do título, na Athena de 1924: tradução ritmicamente conforme com o original. Ele assumiu o compromisso de reproduzir a batida do inglês, e a primeira estrofe mostra o resultado, aqui com a grafia atualizada.
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Machado trabalhou de outro jeito. Ele encurtou e alongou os versos, montou estrofes de dez linhas e abriu mão da batida do inglês. Há estudo defendendo que ele traduziu a partir da versão em prosa francesa de Baudelaire, e não direto do original.
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
O que Nevermore perde e o que Nunca mais recupera
Poe construiu o poema inteiro em cima do som or. Em português não existe palavra que signifique "nunca mais" e termine nesse som, então a peça central da engenharia se perde na travessia.
As duas traduções tomam a mesma decisão e caem em Nunca mais, que termina em outro som.
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo disse: "Nunca mais."
O que Pessoa faz em seguida é o interessante. Ele transforma o ais na rima de todo o poema: ancestrais, umbrais, celestiais, iguais, sinais, fatais. Machado fecha cada estrofe em mais, também. O som escolhido por Poe muda, e o princípio dele sobrevive: uma única sonoridade volta a cada estrofe, e o leitor passa o poema todo esperando por ela.
Como dizer O Corvo em voz alta sem cansar quem ouve
O poema tem cento e oito versos, e a leitura em voz alta leva perto de dez minutos em ritmo confortável. É tempo suficiente para perder a plateia se a voz sair no automático.
Comece devagar. As primeiras estrofes são de cenário, e a pressa nelas gasta o fôlego que as estrofes finais vão pedir.
Marque a rima interna do primeiro verso de cada estrofe com uma leve desaceleração. Ela é o aviso de que a estrofe começou, e o ouvinte se localiza por ela sem saber que está fazendo a conta.
Segure a pausa antes do verso curto. O refrão precisa chegar depois de um silêncio, porque o efeito está na queda e não no volume.
Não faça voz de corvo. A palavra repetida funciona porque é sempre igual, e qualquer teatralização a mais destrói a impressão de máquina que responde sozinha.
Suba o tom só uma vez, na estrofe em que a pergunta se torna direta e o amante exige a resposta que já sabe. Poe declara no ensaio ter escrito essa estrofe antes de todas as outras, e ela aguenta o peso.
Termine baixo. A última estrofe descreve uma sombra parada no chão, e o texto pede voz de constatação, não de susto.
O que a Filosofia da Composição não prova
O ensaio conta uma história limpa demais para o que se sabe de qualquer processo de escrita, e essa desconfiança acompanha o texto desde o século 19.
Há duas leituras, e as duas convivem em bibliografia respeitável. Uma toma o ensaio como diário de trabalho. A outra toma como reconstrução feita depois, uma demonstração de método montada para provar que a poesia se ensina.
A segunda leitura tem argumentos práticos a favor. Poe vivia de publicar em revista, e um autor recém-famoso explicando como fabricou o próprio sucesso é matéria que vende.
O que nenhuma das duas leituras derruba é a peça concreta. A palavra repetida está no texto, a métrica está contável, o pássaro que fala sem entender está na cena e o comprimento é o que o ensaio declarou.
O ensaio também rendeu descendência fora do inglês. Charles Baudelaire e Paul Valéry leram Poe como teórico, e a ideia de poema calculado atravessou a poesia francesa com a assinatura de um autor americano morto na miséria.
Em casa, o teste é simples e não custa nada. Leia a estrofe de Pessoa em voz alta uma vez, depois a de Machado, e repare em que ponto a sua respiração pede para parar. As duas contam a mesma noite, e nenhuma delas soa igual.
Perguntas frequentes
Quem escreveu O Corvo e em que ano?
Edgar Allan Poe. O poema saiu em 29 de janeiro de 1845, no jornal Evening Mirror, de Nova York. Em fevereiro do mesmo ano a American Review publicou o texto assinado por Quarles, um pseudônimo, e a autoria de Poe nunca esteve em dúvida.
O que significa Nevermore?
Nunca mais. Poe conta no ensaio The Philosophy of Composition que escolheu a palavra pelo som antes de escolher o assunto: queria o o longo, a vogal mais sonora do inglês, junto do r, e um sentido que aguentasse ser repetido dezenas de vezes sem virar piada.
Por que o pássaro é um corvo?
Porque ele fala sem entender. Poe escreve que pensou primeiro num papagaio e trocou pelo corvo, capaz da mesma repetição e mais afinado com o tom fúnebre. Uma pessoa repetindo a mesma palavra soaria como defeito, já que pessoas escolhem o que dizem.
O Corvo está em domínio público no Brasil?
O original sim. Poe morreu em 1849, e o texto em inglês pode ser copiado sem licença. A tradução tem direito próprio, contado da morte do tradutor: as versões de Machado de Assis, de Emílio de Meneses e de Fernando Pessoa já são livres, e traduções recentes seguem protegidas.
Qual a melhor tradução de O Corvo em português?
Depende do que você quer preservar. Pessoa declarou compromisso com a batida do original e manteve a estrofe de seis linhas. Machado montou estrofes de dez linhas e abriu mão do ritmo do inglês. Para ler em voz alta, a de Pessoa costuma responder melhor.
Quantos versos tem o poema?
Cento e oito, distribuídos em dezoito estrofes de seis versos. O número não é acaso: Poe declara no ensaio ter fixado a medida em torno de cem versos antes de escrever, para que a leitura coubesse numa sentada só.
Qual é a estrofe mais famosa?
A do clímax, em que o amante pergunta se voltará a encontrar Lenora e recebe a resposta de sempre. Poe afirma tê-la escrito antes de todas as outras e montado o poema em volta dela, de trás para frente.
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