O poema · Obra
Retrato, de Cecília Meireles: o rosto que mudou sem aviso
Obras · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
Retrato tem doze versos e cabe numa página. O leitor nunca fica sabendo como era o rosto antigo.
O poema está em Viagem, livro de 1939. A obra de Cecília Meireles segue protegida por direito autoral no Brasil até 2035, então o texto não é reproduzido aqui: o que vem abaixo é a montagem do poema, com dois versos citados para comentário.
Quem quiser ler Viagem inteiro encontra o livro na edição da Global Editora, que publica a obra dela no Brasil.
O retrato feito por subtração
O primeiro verso já entrega o método:
Eu não tinha este rosto de hoje,
A frase apresenta o rosto atual pela negação do anterior, e o anterior nunca chega a aparecer.
A negativa em primeira pessoa abre as três estrofes. O poema avança sempre pelo que faltou, jamais pelo que houve.
Um retrato comum lista o que está no rosto. Este lista o que saiu dele, e quem lê monta o resto sozinho.
O título promete o gênero da pintura, em que alguém mostra uma cara. O poema entrega uma moldura com a cara faltando dentro.
Do rosto ao coração, sem aviso
A primeira estrofe fica na cara: o rosto, os olhos, o lábio. A segunda desce para as mãos. A terceira chega ao coração.
O caminho vai de fora para dentro, e a temperatura cai junto. As mãos aparecem paradas e sem força. O coração aparece escondido de quem olha.
A ordem das partes é a de quem se examina de verdade. Primeiro o que qualquer pessoa vê, depois o que só aparece de perto, por último o que ninguém alcança.
Nenhum verso explica a causa. Doença, data e acontecimento ficam de fora, e a mudança chega sem culpado.
A terceira estrofe muda de assunto. Ela deixa o corpo de lado e trata da falta de percepção.
A mudança recebe três qualificações seguidas, e as três dizem a mesma coisa: veio sem drama. O tempo, no poema, não é medido em anos. Ele é medido pela distância entre duas imagens do mesmo rosto.
Não há relógio nem calendário no texto. A quantidade de anos nunca aparece, e a ausência do número é o que deixa qualquer leitor entrar. Alguém de trinta lê a mesma frase que alguém de setenta, e as duas leituras cabem inteiras.
A pergunta ao espelho
O fim vira pergunta, e a pergunta fica sem resposta:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?
O verbo escolhido é perder, que pede um lugar e um momento.
A pergunta trata a face antiga como objeto extraviado e trata o espelho como lugar onde ela poderia ter ficado. Espelho não guarda nada, e o poema termina com a pergunta de pé.
Guardar a cena, e não a resposta, é o que faz o texto ser lembrado décadas depois.
Como o poema costuma circular
O texto viaja bem porque é curto, e a viagem cobra o preço de sempre. Ele aparece em post de aniversário, em legenda de foto antiga e em trabalho de escola, quase sempre reduzido à pergunta final.
Cortado assim, o poema perde a construção que sustenta a pergunta. Sem as estrofes de negativa, o espelho vira frase de efeito, e a mudança que ninguém percebeu some da conta.
Verso sem autor também some do mapa. Quando o texto circula sem o nome de Cecília Meireles e sem o nome do livro, quem gostou fica sem destino, e sobra procurar a frase inteira no buscador.
Viagem, premiado e contestado no mesmo ano
Viagem ganhou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras em 1938, com o livro ainda inédito, por parecer favorável do relator Cassiano Ricardo. O volume saiu em Portugal no ano seguinte.
A decisão virou caso de jornal. Era a primeira vez que o prêmio ia para uma mulher, e ia também para um livro que a casa não reconhecia como seu. Cassiano Ricardo defendeu a escolha em público, e a defesa foi reunida depois em A Academia e a poesia moderna, de 1939.
O livro incomodava dos dois lados. Ele usa metro regular e rima numa década em que o modernismo já tinha jogado as duas fora. E trata de tempo, morte e desaparecimento quando a poesia brasileira estava indo para a rua e para a política.
Retrato mostra a briga inteira em doze versos. A forma é antiga, o assunto é interior, e o resultado não se parece com o que a geração dos anos 1930 estava publicando.
A polêmica hoje serve de índice. Um livro que irrita a academia e o modernismo ao mesmo tempo costuma estar fazendo alguma coisa que os dois lados ainda não tinham como nomear.
A newsletter Poesia do Dia está em preparação
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.
Onde o poema costuma pegar as pessoas
O encontro raramente acontece diante de um espelho de banheiro. Ele acontece na vitrine de uma loja fechada, no vidro do ônibus parado, na tela escura do telefone antes de acender.
O rosto aparece de surpresa, num vidro que não foi feito para devolver rosto nenhum. A comparação começa sozinha, e dura o tempo do sinal abrir.
Veja também
A Rosa do Povo: o livro em que a rua entrou no poema de Drummond
Canção do Exílio: o poema inteiro de 1843 e o que a repetição faz
Poesia do Dia está chegando
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.