O poema · Obra
Retrato, de Cecília Meireles: o rosto que mudou sem aviso
Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O retrato feito por subtração
- Do rosto ao coração, sem aviso
- A pergunta ao espelho
- O que mais tem dentro de Viagem
- Como ler os doze versos em voz alta
- Como o poema costuma circular
- Viagem, premiado e contestado no mesmo ano
- Quem escreveu, e por que a voz é essa
- Linha do tempo do poema e do prêmio
- Onde o poema costuma pegar as pessoas
- Perguntas frequentes
Retrato tem doze versos e cabe numa página. O leitor nunca fica sabendo como era o rosto antigo.
O poema está em Viagem, livro de 1939. A obra de Cecília Meireles segue protegida por direito autoral no Brasil até 2035, então o texto não é reproduzido aqui: o que vem abaixo é a montagem do poema, com dois versos citados para comentário.
Quem quiser ler Viagem inteiro encontra o livro na edição da Global Editora, que publica a obra dela no Brasil.
O retrato feito por subtração
O primeiro verso já entrega o método:
Eu não tinha este rosto de hoje,
A frase apresenta o rosto atual pela negação do anterior, e o anterior nunca chega a aparecer.
A negativa em primeira pessoa abre as três estrofes. O poema avança sempre pelo que faltou, jamais pelo que houve.
Um retrato comum lista o que está no rosto. Este lista o que saiu dele, e quem lê monta o resto sozinho.
O título promete o gênero da pintura, em que alguém mostra uma cara. O poema entrega uma moldura com a cara faltando dentro.
Do rosto ao coração, sem aviso
A primeira estrofe fica na cara: o rosto, os olhos, o lábio. A segunda desce para as mãos. A terceira chega ao coração.
O caminho vai de fora para dentro, e a temperatura cai junto. As mãos aparecem paradas e sem força. O coração aparece escondido de quem olha.
A ordem das partes é a de quem se examina de verdade. Primeiro o que qualquer pessoa vê, depois o que só aparece de perto, por último o que ninguém alcança.
Nenhum verso explica a causa. Doença, data e acontecimento ficam de fora, e a mudança chega sem culpado.
A terceira estrofe muda de assunto. Ela deixa o corpo de lado e trata da falta de percepção.
A mudança recebe três qualificações seguidas, e as três dizem a mesma coisa: veio sem drama. O tempo, no poema, não é medido em anos. Ele é medido pela distância entre duas imagens do mesmo rosto.
Não há relógio nem calendário no texto. A quantidade de anos nunca aparece, e a ausência do número é o que deixa qualquer leitor entrar. Alguém de trinta lê a mesma frase que alguém de setenta, e as duas leituras cabem inteiras.
A pergunta ao espelho
O fim vira pergunta, e a pergunta fica sem resposta:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?
O verbo escolhido é perder, que pede um lugar e um momento.
A pergunta trata a face antiga como objeto extraviado e trata o espelho como lugar onde ela poderia ter ficado. Espelho não guarda nada, e o poema termina com a pergunta de pé.
Guardar a cena, e não a resposta, é o que faz o texto ser lembrado décadas depois.
O que mais tem dentro de Viagem
Retrato não é peça solta. Ele pertence a um livro com projeto claro, e ler o volume muda o tamanho do poema.
O título já é o programa. Viagem trata de passagem: o tempo que corre, o mar que não fixa forma, a coisa que existe enquanto acontece e some depois. O rosto perdido do Retrato é um caso particular do assunto do livro inteiro.
O tom é de canto, e não de conversa. Muitos poemas do volume têm medida regular e rima, com estrofes curtas que pedem voz alta, o que os aproxima da canção antiga e os afasta do verso livre que dominava a poesia brasileira daquela década.
O eu do livro é quase sem biografia. Não há nome de cidade, nome de pessoa, emprego nem data, e é a ausência do detalhe particular que faz o leitor caber no lugar de quem fala.
Motivo, o poema de abertura do volume, é o outro texto mais conhecido do livro, aquele em que a voz declara cantar porque o instante existe. Lidos em sequência, os dois se completam: um afirma a existência do instante, o outro constata que o instante levou embora um rosto.
Quem gostar do volume tem continuação nos livros dos anos 1940, onde estão poemas igualmente populares sobre reinvenção da vida e sobre canção. O mesmo procedimento se repete: assunto grande, vocabulário simples, verso curto.
Como ler os doze versos em voz alta
O poema é curto e engana quem lê rápido. Doze versos gastam menos de um minuto, e a pressa desmancha a construção.
Leia as três estrofes com a mesma temperatura. A tentação é dramatizar a última, e o efeito depende justamente de a voz não avisar que a pergunta está chegando.
Marque as negativas do começo de estrofe. São elas que constroem o retrato por subtração, e uma leve ênfase no não é o que faz o ouvinte perceber que nada está sendo descrito de fato.
Respeite a descida. Rosto, mãos, coração: a voz pode acompanhar o percurso baixando um pouco a cada estrofe, sem virar sussurro.
Pare antes da pergunta. Uma pausa de um segundo antes do verso do espelho separa a constatação da dúvida, e é a única marcação de que a leitura precisa.
Não responda a pergunta com a entonação. Terminar em tom descendente soa como conclusão, e o poema termina em aberto: a voz sobe e para, sem fechar.
Se for ler numa cerimônia, diga o nome da autora e o do livro antes de começar. São duas informações curtas, e sem elas o texto costuma virar frase anônima na cabeça de quem ouviu.
Como o poema costuma circular
O texto viaja bem porque é curto, e a viagem cobra o preço de sempre. Ele aparece em post de aniversário, em legenda de foto antiga e em trabalho de escola, quase sempre reduzido à pergunta final.
Cortado assim, o poema perde a construção que sustenta a pergunta. Sem as estrofes de negativa, o espelho vira frase de efeito, e a mudança que ninguém percebeu some da conta.
Verso sem autor também some do mapa. Quando o texto circula sem o nome de Cecília Meireles e sem o nome do livro, quem gostou fica sem destino, e sobra procurar a frase inteira no buscador.
Viagem, premiado e contestado no mesmo ano
Viagem ganhou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras em 1938, com o livro ainda inédito, por parecer favorável do relator Cassiano Ricardo. O volume saiu em Portugal no ano seguinte.
A decisão virou caso de jornal. Era a primeira vez que o prêmio ia para uma mulher, e ia também para um livro que a casa não reconhecia como seu. Cassiano Ricardo defendeu a escolha em público, e a defesa foi reunida depois em A Academia e a poesia moderna, de 1939.
O livro incomodava dos dois lados. Ele usa metro regular e rima numa década em que o modernismo já tinha jogado as duas fora. E trata de tempo, morte e desaparecimento quando a poesia brasileira estava indo para a rua e para a política.
Retrato mostra a briga inteira em doze versos. A forma é antiga, o assunto é interior, e o resultado não se parece com o que a geração dos anos 1930 estava publicando.
A polêmica hoje serve de índice. Um livro que irrita a academia e o modernismo ao mesmo tempo costuma estar fazendo alguma coisa que os dois lados ainda não tinham como nomear.
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Quem escreveu, e por que a voz é essa
O poema não tem biografia dentro, e a biografia de quem o escreveu explica a temperatura dele.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e ficou órfã dos pais na primeira infância, criada pela avó. Perda cedo demais e ausência de explicação são o material de casa, e as duas coisas aparecem na obra sem virar confissão.
Ela se formou professora e trabalhou em educação a vida inteira, escrevendo sobre escola em jornal e defendendo a renovação do ensino público nos anos 1930. A clareza do vocabulário vem daí: quem escreve para leitor de escola aprende a dizer coisa difícil com palavra fácil.
Também viajou muito, deu aulas fora do país e manteve relação próxima com Portugal e com a Índia, de onde recebeu homenagem acadêmica nos anos 1950. O repertório de mar, viagem e passagem tem lastro na vida, e não é ornamento de época.
O resultado é a voz que o Retrato usa: primeira pessoa sem nome, sem cidade e sem data, que constata em vez de se queixar. É a mesma voz que faz o poema caber em qualquer leitor, de qualquer idade.
Linha do tempo do poema e do prêmio
- 1901Cecília Meireles nasce no Rio de Janeiro.
- 1919Publica Espectros, o primeiro livro.
- 1938Viagem, ainda inédito, recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, por parecer favorável do relator Cassiano Ricardo.
- 1939O livro sai em Portugal, e a defesa pública da premiação é reunida em A Academia e a poesia moderna.
- 1953Sai Romanceiro da Inconfidência, a obra mais estudada da autora.
- 1964Cecília Meireles morre no Rio, em novembro, no mesmo ano em que publica o livro infantil Ou Isto ou Aquilo.
- 2035A obra dela entra em domínio público, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte.
Onde o poema costuma pegar as pessoas
O encontro raramente acontece diante de um espelho de banheiro. Ele acontece na vitrine de uma loja fechada, no vidro do ônibus parado, na tela escura do telefone antes de acender.
O rosto aparece de surpresa, num vidro que não foi feito para devolver rosto nenhum. A comparação começa sozinha, e dura o tempo do sinal abrir.
Perguntas frequentes
Quem escreveu o poema Retrato?
Cecília Meireles. O texto está em Viagem, livro premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1938 e publicado em Portugal no ano seguinte. A autora nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e morreu na mesma cidade em 1964.
Qual é o tema do poema Retrato?
A passagem do tempo percebida tarde demais. O poema descreve o rosto atual pelo que sumiu dele, desce do rosto às mãos e ao coração, e termina perguntando em que espelho a face antiga ficou perdida.
Quantos versos tem o poema?
Doze, distribuídos em três estrofes. Cada estrofe começa por uma negativa em primeira pessoa, e o retrato é construído por subtração: o leitor nunca fica sabendo como era o rosto anterior.
Qual é o significado da pergunta final?
Ela trata a face antiga como objeto extraviado e o espelho como lugar onde ela poderia ter ficado. Como espelho não guarda imagem, a pergunta não tem resposta possível, e o poema termina em aberto de propósito.
Posso publicar o poema inteiro num trabalho ou numa homenagem?
A obra segue protegida até 2035, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte da autora. Citar versos com crédito para comentário é uso aceito; reproduzir o poema completo em material distribuído exige autorização da editora.
Em que livro o poema está?
Em Viagem, publicado em 1939. O volume trata de tempo, mar e transitoriedade, e traz também Motivo, o poema em que a voz declara cantar porque o instante existe. A edição em catálogo no Brasil é a da Global Editora.
Por que o prêmio de 1938 gerou polêmica?
Porque era a primeira vez que o prêmio de poesia da Academia ia para uma mulher, e ia para um livro que usava metro regular e rima numa década em que o modernismo já tinha descartado as duas coisas. O relator Cassiano Ricardo defendeu a escolha em público.
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