O poema · Poeta

Bráulio Bessa: como funciona a sextilha que ele declama

Por Redação Poesia do Dia · Poetas · Leitura de 11 minutos

Um prendedor de roupa de madeira gasto sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Muita gente conhece a poesia de Bráulio Bessa de ouvido, e não de leitura. O poema chegou por um vídeo, por um programa de televisão ou por um áudio encaminhado, e a pessoa nunca viu o texto escrito.

A obra dele é recente e segue protegida por direito autoral, então nenhum verso aparece nesta página. O que dá para explicar aqui é a forma, e a forma é justamente o que faz o poema funcionar na voz.

Ela vem da poesia popular do Nordeste e tem regra fechada: a sextilha, seis linhas de sete sílabas, com a rima caindo de dois em dois versos.

A sextilha: seis linhas e sete sílabas

A medida é a redondilha maior, que é o verso de sete sílabas. Ele é o verso mais antigo e mais cantado da língua, e cabe inteiro num fôlego só, sem apertar a respiração de quem diz.

Sete sílabas obrigam a economia. Não sobra espaço para adjetivo empilhado nem para oração encaixada dentro de oração, então a frase chega curta e reta.

Seis linhas dessas formam a estrofe. É pouco para desenvolver argumento e é exatamente o bastante para apresentar uma cena e virar ela no fim.

A conta das sete sílabas tem uma regra que engana quem tenta de primeira: contam-se as sílabas de som, e não as da escrita, parando na última tônica. Vogal que encosta em vogal costuma virar uma só, e o que sobra depois da tônica final não entra na conta.

A rima que chega de dois em dois

O cordel amarra a sextilha por um esquema fixo. Rimam a segunda linha, a quarta e a sexta. A primeira, a terceira e a quinta ficam soltas.

  • linha 1: solta
  • linha 2: rima
  • linha 3: solta
  • linha 4: rima
  • linha 5: solta
  • linha 6: rima

O efeito é audível na primeira estrofe. A rima aparece, some por uma linha, volta, some de novo, volta para fechar. Quem escuta aprende o intervalo em segundos e passa a esperar o som na hora certa.

Veja a última estrofe de A Vida de Pedro Cem, folheto de Leandro Gomes de Barros, morto em 1918 e em domínio público:

A Justiça examinando
Os bolsos de Pedro Cem
Encontrou uma mochila
E dentro dela um vintém
E um letreiro que dizia:
"Ontem teve, hoje não tem."

Cem, vintém e tem carregam a rima. A frase que resume a história inteira está na sexta linha, no lugar onde o ouvinte já estava esperando o som chegar.

As linhas soltas fazem o serviço menos vistoso e mais pesado. Elas carregam a informação, montam a cena e deixam a rima livre para chegar sem forçar a frase. Quem tenta rimar as seis linhas de uma sextilha acaba escolhendo palavra pelo som, e a história desanda.

A sextilha não é a única forma da poesia popular. Existe a estrofe de dez linhas e existem os arranjos de verso mais longo usados na cantoria de improviso. A de seis linhas é a mais comum porque é a que a memória segura com menos esforço.

A conta das sete sílabas, feita na estrofe acima

A regra fica clara quando aplicada num verso concreto, e a estrofe de Leandro Gomes de Barros serve porque é livre de direito e está impressa logo acima.

Pegue a segunda linha, a dos bolsos. Os, bol, sos, de, Pe, dro, Cem: sete sílabas, com a força na última, e a conta fecha sem truque nenhum.

Agora a quarta linha, a do vintém. Escrita, ela parece ter oito: E, den, tro, de, la, um, vin, tém. Dita em voz alta, o la e o um se juntam numa emissão só, e o verso mede sete.

O encontro de vogais entre palavras é o detalhe que derruba quem conta pela escrita. A boca junta o que a página separa, e a métrica segue a boca.

O segundo detalhe é onde a contagem para. Ela para na última sílaba forte do verso, e o que vem depois dela não entra. Verso terminado em palavra com a força na penúltima sílaba parece maior no papel do que é no ouvido.

Vale o exercício com qualquer sextilha impressa. Conte batendo o dedo na mesa, uma batida por sílaba de som, e pare de bater assim que a voz cair na última força. Se o dedo bateu sete vezes, a redondilha está no lugar.

Quem escreve costuma errar na terceira e na quinta linha, as que ficam sem rima. Sem a rima puxando o fim do verso, a mão relaxa e a linha estica para oito ou nove sílabas, defeito que só aparece na hora de dizer.

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Linha do tempo da poesia de cordel

  1. 1865Nasce Leandro Gomes de Barros, autor dos folhetos mais copiados da tradição.
  2. Fim do século 19Os folhetos passam a ser impressos e vendidos em feiras do Nordeste, pendurados em barbante.
  3. 1909Nasce Patativa do Assaré, no Ceará, que levaria a métrica do cordel ao livro e ao disco.
  4. 1918Morre Leandro Gomes de Barros, e a obra dele hoje está em domínio público, o que permite copiar os versos citados nesta página.
  5. 1985Nasce Bráulio Bessa, em Alto Santo, no interior do Ceará.
  6. 1988É fundada no Rio de Janeiro a Academia Brasileira de Literatura de Cordel.
  7. 2017Sai Poesia com rapadura, pela CeNE, no mesmo período em que a poesia declamada dele passa a aparecer em programa de televisão aberta.
  8. 2018Sai Poesia que transforma, pela Sextante, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registra a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil.

A pausa de quem declama

Aqui está a razão de a sextilha sobreviver no vídeo e no palco. A estrofe entrega três pontos de chegada, e o último deles é previsível.

Quem declama costuma segurar a sexta linha por um instante antes de dizer. A plateia já sabe o som que vem, e a espera aumenta o peso da frase que fecha. O silêncio faz metade do trabalho.

A mesma pausa não funciona em verso livre, porque o ouvinte não tem como prever nada. O esquema fixo é o que transforma a espera em ferramenta.

A poesia que voltou para a boca

O cordel nasceu para ser dito. O folheto era impresso barato, pendurado num barbante nas feiras, e vendido por quem lia em voz alta um pedaço para atrair freguês. A leitura silenciosa era a exceção.

Em 2018 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil, por decisão unânime do conselho consultivo.

A poesia declamada em vídeo repete o arranjo antigo com equipamento novo. O poema circula pela voz, o texto impresso vem depois, e a métrica continua sendo o que segura tudo de pé.

A mesma métrica na batalha de rima

Quem assiste a uma batalha de rima numa praça e a uma cantoria de viola numa feira está vendo dois parentes próximos, separados por um século e por um equipamento.

Os dois exigem métrica fixa, rima combinada de antemão e resposta imediata ao adversário ou ao tema sorteado. A regra é o que permite improvisar: sem medida acordada, ninguém sabe quando o outro terminou o verso.

A embolada, cantada em dupla com pandeiro, já trabalhava com fala acelerada, refrão e desafio entre os cantadores. O parentesco com o improviso urbano de hoje é reconhecido pelos próprios praticantes, que costumam citar o repente como avô do formato.

O detalhe técnico que atravessa os três é a previsibilidade do som. A plateia acompanha porque sabe onde a rima vai cair, e a surpresa mora na palavra escolhida, nunca no lugar dela.

Onde ler a obra

Ouvir é uma coisa, ler é outra. No papel dá para contar as sílabas, ver onde a rima cai e reparar em quais linhas ficaram soltas.

Dois títulos servem de porta de entrada. Poesia com rapadura saiu pela CeNE em 2017. Poesia que transforma saiu pela Sextante em 2018.

Poema de autor vivo copiado inteiro em post, convite ou cartaz é uso sem licença, mesmo com o nome do poeta embaixo. O caminho limpo é citar o título e indicar o livro.

Como declamar uma sextilha sem decorar errado

Declamação parece talento e é procedimento. Quem começa tenta guardar o texto palavra por palavra, e é o caminho mais difícil.

Comece guardando as três rimas. Numa sextilha, a segunda, a quarta e a sexta linha terminam no mesmo som, e essas três palavras funcionam como mapa da estrofe inteira.

Depois marque a cena de cada estrofe numa frase curta. O cordel narra, e a memória de história é bem mais estável que a memória de texto.

Ensaie em pé e com a respiração no lugar. A redondilha maior cabe num fôlego só, então a regra é respirar entre versos, nunca no meio de um.

Trabalhe a pausa antes da sexta linha. É ali que a plateia já sabe o som que vem, e o silêncio de meio segundo entrega a frase com o dobro do peso.

Não acelere na estrofe final. Quem decora bem tende a correr no fim porque conhece o texto, e o público está ouvindo pela primeira vez.

E não improvise rima em cima da hora. Rima escolhida às pressas empurra a frase para onde ela não queria ir, defeito que os cantadores de improviso levam anos para dominar.

Na sala, alguém abre o vídeo no celular e aumenta o volume para o resto da casa ouvir. O poema dura pouco mais de um minuto, e no fim ninguém comenta a métrica. Ela já tinha feito o serviço dela.

Perguntas frequentes

Que tipo de poesia Bráulio Bessa faz?

Poesia popular na forma do cordel, quase sempre em sextilha: estrofes de seis linhas de sete sílabas, com rima na segunda, na quarta e na sexta. É a mesma métrica dos folhetos vendidos em feira no Nordeste desde o fim do século 19.

O que é uma sextilha?

A estrofe de seis versos do cordel, cada um com sete sílabas poéticas. Rimam o segundo, o quarto e o sexto verso; o primeiro, o terceiro e o quinto ficam soltos e carregam a informação da cena.

O que é redondilha maior?

O verso de sete sílabas, contadas pelo som e até a última sílaba forte. É a medida mais antiga e mais cantada da língua portuguesa, e cabe inteira num fôlego só, o que explica a presença dela na poesia feita para ser dita.

Posso publicar um poema dele no meu convite ou post?

Não sem autorização. A obra é recente e segue protegida por direito autoral, e copiar o texto inteiro com o nome do autor embaixo continua sendo cópia sem licença. O caminho limpo é citar o título e indicar o livro.

Quais livros dele existem?

Poesia com rapadura, publicado pela CeNE em 2017, e Poesia que transforma, pela Sextante, em 2018. Ler no papel permite contar as sílabas, ver onde a rima cai e reparar em quais linhas ficaram soltas, coisa que a audição sozinha não entrega.

Cordel e poesia declamada são a mesma coisa?

Não. O cordel é a tradição impressa em folheto, com métrica fechada; a declamação é o modo de entrega. A poesia declamada em vídeo usa a métrica do cordel e devolve o texto à voz, que é como ele circulava antes de existir livro barato.

Onde a literatura de cordel é reconhecida oficialmente?

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018, por decisão unânime do conselho consultivo. Existe também a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, fundada no Rio em 1988.

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