O poema · Poeta
Bráulio Bessa: como funciona a sextilha que ele declama
Poetas · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
Muita gente conhece a poesia de Bráulio Bessa de ouvido, e não de leitura. O poema chegou por um vídeo, por um programa de televisão ou por um áudio encaminhado, e a pessoa nunca viu o texto escrito.
A obra dele é recente e segue protegida por direito autoral, então nenhum verso aparece nesta página. O que dá para explicar aqui é a forma, e a forma é justamente o que faz o poema funcionar na voz.
Ela vem da poesia popular do Nordeste e tem regra fechada: a sextilha, seis linhas de sete sílabas, com a rima caindo de dois em dois versos.
A sextilha: seis linhas e sete sílabas
A medida é a redondilha maior, que é o verso de sete sílabas. Ele é o verso mais antigo e mais cantado da língua, e cabe inteiro num fôlego só, sem apertar a respiração de quem diz.
Sete sílabas obrigam a economia. Não sobra espaço para adjetivo empilhado nem para oração encaixada dentro de oração, então a frase chega curta e reta.
Seis linhas dessas formam a estrofe. É pouco para desenvolver argumento e é exatamente o bastante para apresentar uma cena e virar ela no fim.
A conta das sete sílabas tem uma regra que engana quem tenta de primeira: contam-se as sílabas de som, e não as da escrita, parando na última tônica. Vogal que encosta em vogal costuma virar uma só, e o que sobra depois da tônica final não entra na conta.
A rima que chega de dois em dois
O cordel amarra a sextilha por um esquema fixo. Rimam a segunda linha, a quarta e a sexta. A primeira, a terceira e a quinta ficam soltas.
- linha 1: solta
- linha 2: rima
- linha 3: solta
- linha 4: rima
- linha 5: solta
- linha 6: rima
O efeito é audível na primeira estrofe. A rima aparece, some por uma linha, volta, some de novo, volta para fechar. Quem escuta aprende o intervalo em segundos e passa a esperar o som na hora certa.
Veja a última estrofe de A Vida de Pedro Cem, folheto de Leandro Gomes de Barros, morto em 1918 e em domínio público:
A Justiça examinando
Os bolsos de Pedro Cem
Encontrou uma mochila
E dentro dela um vintém
E um letreiro que dizia:
"Ontem teve, hoje não tem."
Cem, vintém e tem carregam a rima. A frase que resume a história inteira está na sexta linha, no lugar onde o ouvinte já estava esperando o som chegar.
As linhas soltas fazem o serviço menos vistoso e mais pesado. Elas carregam a informação, montam a cena e deixam a rima livre para chegar sem forçar a frase. Quem tenta rimar as seis linhas de uma sextilha acaba escolhendo palavra pelo som, e a história desanda.
A sextilha não é a única forma da poesia popular. Existe a estrofe de dez linhas e existem os arranjos de verso mais longo usados na cantoria de improviso. A de seis linhas é a mais comum porque é a que a memória segura com menos esforço.
A pausa de quem declama
Aqui está a razão de a sextilha sobreviver no vídeo e no palco. A estrofe entrega três pontos de chegada, e o último deles é previsível.
Quem declama costuma segurar a sexta linha por um instante antes de dizer. A plateia já sabe o som que vem, e a espera aumenta o peso da frase que fecha. O silêncio faz metade do trabalho.
A mesma pausa não funciona em verso livre, porque o ouvinte não tem como prever nada. O esquema fixo é o que transforma a espera em ferramenta.
A poesia que voltou para a boca
O cordel nasceu para ser dito. O folheto era impresso barato, pendurado num barbante nas feiras, e vendido por quem lia em voz alta um pedaço para atrair freguês. A leitura silenciosa era a exceção.
Em 2018 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil, por decisão unânime do conselho consultivo.
A poesia declamada em vídeo repete o arranjo antigo com equipamento novo. O poema circula pela voz, o texto impresso vem depois, e a métrica continua sendo o que segura tudo de pé.
Onde ler a obra
Ouvir é uma coisa, ler é outra. No papel dá para contar as sílabas, ver onde a rima cai e reparar em quais linhas ficaram soltas.
Dois títulos servem de porta de entrada. Poesia com rapadura saiu pela CeNE em 2017. Poesia que transforma saiu pela Sextante em 2018.
Poema de autor vivo copiado inteiro em post, convite ou cartaz é uso sem licença, mesmo com o nome do poeta embaixo. O caminho limpo é citar o título e indicar o livro.
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Na sala, alguém abre o vídeo no celular e aumenta o volume para o resto da casa ouvir. O poema dura pouco mais de um minuto, e no fim ninguém comenta a métrica. Ela já tinha feito o serviço dela.
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