O poema · Obra

Canção do Exílio: o poema inteiro de 1843 e o que a repetição faz

Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 12 minutos

Uma gaiola de arame pequena e vazia com a porta aberta, sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Canção do Exílio tem cinco estrofes e foi escrito longe do Brasil. A data vem impressa no fim do poema: Coimbra, julho de 1843.

O texto abre Primeiros Cantos, livro de 1846, e está em domínio público. Por ser livre, ele aparece aqui inteiro, com a quebra de linha do original.

Antes do poema vem uma epígrafe de Goethe, tirada do canto de Mignon, que pergunta se o leitor conhece a terra onde florescem os limoeiros. A epígrafe arma o resto: quem fala está fora e descreve uma terra que está longe.

O poema inteiro

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, datado de Coimbra, julho de 1843, e publicado em Primeiros Cantos, de 1846. Texto em domínio público.

A edição de referência é a primeira: Primeiros Cantos, Typographia Universal de Laemmert, Rio de Janeiro, 1846, páginas 9 e 10. A grafia aqui está atualizada, como fazem as edições correntes. A pontuação é a do impresso, e os travessões da terceira e da quarta estrofe são de Gonçalves Dias, mantidos onde ele pôs.

O que a repetição faz

O par de abertura volta três vezes: minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. Ele abre o poema, fecha a terceira estrofe e reaparece dentro da quarta.

Cada volta chega mais tarde, porque a estrofe cresce para acomodá-la. A conta de versos vai de quatro, quatro e quatro para seis e seis. O poema termina mais lento do que começou.

O verso é a redondilha maior, de sete sílabas, o mesmo tamanho da quadra que se canta em roda. Ele cabe num fôlego só, e por causa da medida o texto pede voz alta antes de pedir análise.

A arquitetura acompanha a repetição. As três primeiras estrofes têm quatro versos, e as duas últimas têm seis. O poema não muda de assunto para crescer: ele encaixa o mesmo par de abertura dentro de blocos cada vez maiores, e a frase conhecida vai ficando mais funda dentro da estrofe.

Duas sílabas fazem o argumento

Todo o poema se apoia em duas palavras de uma sílaba: lá e cá. Uma indica a terra deixada, a outra indica o lugar de quem escreve, e a rima em á fecha quase todas as voltas.

A comparação nunca prova nada. Ela repete uma fórmula: mais estrelas, mais flores, mais vida, mais amores. O poema não descreve a paisagem brasileira, ele a declara superior e segue adiante.

A quinta estrofe muda de modo. A comparação vira pedido, com Deus como destinatário, e entra o único risco real do texto: morrer antes de voltar. O poema termina numa palmeira que o autor ainda não sabe se vai ver.

Uma palavra nunca aparece no poema, e a falta dela explica muita coisa: Brasil. O texto diz sempre minha terra, expressão que qualquer pessoa pode usar sobre qualquer lugar. O poema mais nacional da língua evita o nome do país do começo ao fim.

O inventário também é curto. Uma árvore, um pássaro, o céu, a várzea, o bosque. Nenhuma cidade, nenhuma pessoa, nenhuma comida, nenhuma rua com nome. A terra do poema é feita de categorias, e é por caber tão pouca coisa concreta que ela serve de saudade para tanta gente diferente.

Quem estava escrevendo, e de onde

O poema tem endereço e idade. Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1823, e escreveu o texto em Coimbra, onde cursava Direito, aos vinte anos.

A situação explica a gramática do poema. Quem diz cá está em Portugal, quem diz lá está falando do Brasil, e a distância não é figura de linguagem: era o Atlântico inteiro, numa época em que a travessia levava semanas.

O livro que abre com o poema, Primeiros Cantos, saiu em 1846, três anos depois da escrita, já com o autor de volta ao Brasil. O volume trouxe também os poemas de assunto indígena que fariam o nome dele, entre eles o mais estudado da obra, sobre o guerreiro tupi preparado para morrer sem chorar.

A quinta estrofe ganhou peso que o autor não podia prever. Ele pede a Deus para não morrer sem voltar a ver as palmeiras, e em novembro de 1864 morreu num naufrágio na costa do Maranhão, na volta de uma viagem à Europa, perto da terra que o poema descreve.

O detalhe biográfico costuma ser contado como ironia do destino. Vale como aviso de leitura: o pedido da última estrofe é o único trecho do poema que fala de risco concreto, e o resto é comparação.

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Linha do tempo do poema

  1. 1823Gonçalves Dias nasce em Caxias, no Maranhão.
  2. 1838Embarca para Portugal, onde estudaria Direito na Universidade de Coimbra.
  3. Julho de 1843Escreve a Canção do Exílio, com a data e a cidade impressas no fim do texto.
  4. 1846Primeiros Cantos sai pela Typographia Universal de Laemmert, no Rio de Janeiro, com o poema na abertura.
  5. 1851Sai Últimos Cantos, o terceiro e último volume de poesia publicado em vida.
  6. 1864O poeta morre em novembro, num naufrágio na costa do Maranhão, ao voltar da Europa.
  7. 1922A letra do Hino Nacional de Joaquim Osório Duque-Estrada é oficializada, com dois trechos do poema entre aspas.
  8. 1925Oswald de Andrade publica o Canto de Regresso à Pátria, em Pau Brasil, e abre a fila das paródias modernistas.
  9. 2025A obra de Oswald de Andrade entra em domínio público.

A linha que foi parar no hino

A letra do Hino Nacional Brasileiro, de Joaquim Osório Duque-Estrada, virou oficial em 1922, durante o centenário da Independência. Ela carrega dois pedaços da segunda estrofe do poema.

Na letra oficial os pedaços aparecem entre aspas: "Nossos bosques têm mais vida", "Nossa vida" no teu seio "mais amores". As aspas são o crédito, e são raras em canção de multidão.

O hino cita Gonçalves Dias e avisa que está citando. Milhões de pessoas cantam de cor uma letra com marca de citação embutida, sem nunca ter reparado nas aspas.

A fila das paródias

O poema virou molde logo cedo. Em 1925, no Pau Brasil, Oswald de Andrade publicou o Canto de Regresso à Pátria, que troca as palmeiras por palmares e entrega o canto ao mar:

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar

A troca desloca a paisagem para a história do país, e o pássaro que cantava desaparece do verso. Oswald de Andrade morreu em 1954, e a obra dele entrou em domínio público em 2025.

Outras paródias conhecidas continuam protegidas. A de Murilo Mendes, dos anos 1930, com as macieiras da Califórnia, e a Nova Canção do Exílio de Carlos Drummond de Andrade dependem de edição autorizada, e por causa da regra não são reproduzidas aqui.

A fila segue fora dos livros, em samba, em propaganda e em piada de internet. Um verso de sete sílabas com rima em á é fácil de imitar, e a fórmula sobrevive a cada imitação.

A palmeira e o sabiá, fora do poema

As duas peças de cenário do texto tiveram vida própria depois dele, e conhecer a história das duas muda a leitura.

A palmeira imperial que virou emblema no Rio de Janeiro tem data. O Jardim Botânico registra o plantio da primeira delas em 1809, por ordem do príncipe regente, e a árvore ficou conhecida como a mãe das outras do parque. Quando o poema fala em palmeiras, a imagem já circulava associada ao país.

O sabiá teve consagração oficial bem mais tarde. O sabiá-laranjeira foi declarado ave símbolo do Brasil por decreto federal em 2002, mais de cento e cinquenta anos depois do poema, e o canto que aparece no primeiro verso é o mesmo que se ouve em quintal de cidade grande.

O detalhe engraçado é que o poema não descreve nenhum dos dois. Não há cor, tamanho, cheiro nem forma: a palmeira é uma palavra, o sabiá é um verbo cantando. A imagem inteira é montada por quem lê.

É justamente a economia que fez o texto durar. Descrição fechada envelhece com a paisagem descrita, e uma categoria vazia continua servindo a qualquer saudade.

O que a prova costuma perguntar

O poema é presença fixa em vestibular e em prova de escola, e as perguntas se repetem tanto que dá para listar.

A primeira pede a escola literária. O texto é do Romantismo brasileiro, da chamada primeira geração, aquela em que a natureza do país e a figura do indígena entram como matéria nacional.

A segunda pergunta pela epígrafe. Ela vem do canto de Mignon, de Goethe, e cumpre função dupla: filia o poema a um modelo europeu e anuncia o assunto, a terra distante descrita por quem está fora.

A terceira mira o ufanismo, palavra usada para o elogio sem prova da própria terra. A resposta que a banca espera costuma vir com a fórmula do texto: mais estrelas, mais flores, mais vida, mais amores, comparação declarada e nunca demonstrada.

A quarta trata de intertextualidade e cobra as paródias, com Oswald de Andrade à frente da fila. Quem souber que a citação também está no Hino Nacional, entre aspas, responde a questão inteira.

A quinta pergunta pelo metro. O verso é a redondilha maior, de sete sílabas, e a arquitetura vai de estrofes de quatro versos para estrofes de seis.

O pássaro continua trabalhando

Sabiá de quintal canta cedo, antes do trânsito acordar, e para quando o primeiro ônibus passa. Quem mora em apartamento de fundos escuta o mesmo repertório em julho, quase sempre sem lembrar do poema.

Perguntas frequentes

Quem escreveu a Canção do Exílio e quando?

Gonçalves Dias, em julho de 1843, na cidade de Coimbra, em Portugal, onde estudava Direito. A data e o local vêm impressos no fim do poema. O texto abre Primeiros Cantos, livro publicado no Rio de Janeiro em 1846.

Qual é o tema do poema?

A saudade da terra vista de longe. Quem fala está fora do país e compara os dois lugares com uma fórmula de superioridade, até que a última estrofe muda de tom e pede a Deus para não morrer sem voltar.

O poema fala do Brasil?

Fala, sem nunca dizer o nome. A expressão usada é sempre minha terra, e nenhuma cidade, pessoa ou comida aparece no texto. A paisagem é feita de categorias, palmeira, sabiá, céu, várzea, bosque, e é por caber tão pouco concreto que ela serve de saudade para tanta gente.

O que a Canção do Exílio tem a ver com o Hino Nacional?

A letra oficial de 1922, de Joaquim Osório Duque-Estrada, cita dois trechos da segunda estrofe do poema e marca a citação entre aspas. Milhões de pessoas cantam de cor uma letra com crédito embutido, sem nunca ter reparado nas aspas.

Quantas estrofes tem e qual é o metro?

Cinco estrofes: as três primeiras com quatro versos e as duas últimas com seis. O metro é a redondilha maior, o verso de sete sílabas contadas até a última tônica, que é a medida da quadra cantada em roda.

Quais são as paródias mais conhecidas?

O Canto de Regresso à Pátria, de Oswald de Andrade, publicado em Pau Brasil em 1925, é a mais citada. Existem ainda a versão de Murilo Mendes, dos anos 1930, e a de Carlos Drummond de Andrade, as duas ainda protegidas por direito autoral.

Posso copiar o poema inteiro num trabalho ou num site?

Pode. Gonçalves Dias morreu em 1864 e o texto está em domínio público, o que permite reproduzir, imprimir e ler em voz alta sem autorização. O cuidado que resta é indicar a edição usada, porque a grafia varia entre o impresso de 1846 e as edições correntes.

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