O poema · Obra
Canção do Exílio: o poema inteiro de 1843 e o que a repetição faz
Obras · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
Canção do Exílio tem cinco estrofes e foi escrito longe do Brasil. A data vem impressa no fim do poema: Coimbra, julho de 1843.
O texto abre Primeiros Cantos, livro de 1846, e está em domínio público. Por ser livre, ele aparece aqui inteiro, com a quebra de linha do original.
Antes do poema vem uma epígrafe de Goethe, tirada do canto de Mignon, que pergunta se o leitor conhece a terra onde florescem os limoeiros. A epígrafe arma o resto: quem fala está fora e descreve uma terra que está longe.
O poema inteiro
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, datado de Coimbra, julho de 1843, e publicado em Primeiros Cantos, de 1846. Texto em domínio público.
A edição de referência é a primeira: Primeiros Cantos, Typographia Universal de Laemmert, Rio de Janeiro, 1846, páginas 9 e 10. A grafia aqui está atualizada, como fazem as edições correntes. A pontuação é a do impresso, e os travessões da terceira e da quarta estrofe são de Gonçalves Dias, mantidos onde ele pôs.
O que a repetição faz
O par de abertura volta três vezes: minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. Ele abre o poema, fecha a terceira estrofe e reaparece dentro da quarta.
Cada volta chega mais tarde, porque a estrofe cresce para acomodá-la. A conta de versos vai de quatro, quatro e quatro para seis e seis. O poema termina mais lento do que começou.
O verso é a redondilha maior, de sete sílabas, o mesmo tamanho da quadra que se canta em roda. Ele cabe num fôlego só, e por causa da medida o texto pede voz alta antes de pedir análise.
A arquitetura acompanha a repetição. As três primeiras estrofes têm quatro versos, e as duas últimas têm seis. O poema não muda de assunto para crescer: ele encaixa o mesmo par de abertura dentro de blocos cada vez maiores, e a frase conhecida vai ficando mais funda dentro da estrofe.
Duas sílabas fazem o argumento
Todo o poema se apoia em duas palavras de uma sílaba: lá e cá. Uma indica a terra deixada, a outra indica o lugar de quem escreve, e a rima em á fecha quase todas as voltas.
A comparação nunca prova nada. Ela repete uma fórmula: mais estrelas, mais flores, mais vida, mais amores. O poema não descreve a paisagem brasileira, ele a declara superior e segue adiante.
A quinta estrofe muda de modo. A comparação vira pedido, com Deus como destinatário, e entra o único risco real do texto: morrer antes de voltar. O poema termina numa palmeira que o autor ainda não sabe se vai ver.
Uma palavra nunca aparece no poema, e a falta dela explica muita coisa: Brasil. O texto diz sempre minha terra, expressão que qualquer pessoa pode usar sobre qualquer lugar. O poema mais nacional da língua evita o nome do país do começo ao fim.
O inventário também é curto. Uma árvore, um pássaro, o céu, a várzea, o bosque. Nenhuma cidade, nenhuma pessoa, nenhuma comida, nenhuma rua com nome. A terra do poema é feita de categorias, e é por caber tão pouca coisa concreta que ela serve de saudade para tanta gente diferente.
A linha que foi parar no hino
A letra do Hino Nacional Brasileiro, de Joaquim Osório Duque-Estrada, virou oficial em 1922, durante o centenário da Independência. Ela carrega dois pedaços da segunda estrofe do poema.
Na letra oficial os pedaços aparecem entre aspas: "Nossos bosques têm mais vida", "Nossa vida" no teu seio "mais amores". As aspas são o crédito, e são raras em canção de multidão.
O hino cita Gonçalves Dias e avisa que está citando. Milhões de pessoas cantam de cor uma letra com marca de citação embutida, sem nunca ter reparado nas aspas.
A fila das paródias
O poema virou molde logo cedo. Em 1925, no Pau Brasil, Oswald de Andrade publicou o Canto de Regresso à Pátria, que troca as palmeiras por palmares e entrega o canto ao mar:
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
A troca desloca a paisagem para a história do país, e o pássaro que cantava desaparece do verso. Oswald de Andrade morreu em 1954, e a obra dele entrou em domínio público em 2025.
Outras paródias conhecidas continuam protegidas. A de Murilo Mendes, dos anos 1930, com as macieiras da Califórnia, e a Nova Canção do Exílio de Carlos Drummond de Andrade dependem de edição autorizada, e por causa da regra não são reproduzidas aqui.
A fila segue fora dos livros, em samba, em propaganda e em piada de internet. Um verso de sete sílabas com rima em á é fácil de imitar, e a fórmula sobrevive a cada imitação.
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O pássaro continua trabalhando
Sabiá de quintal canta cedo, antes do trânsito acordar, e para quando o primeiro ônibus passa. Quem mora em apartamento de fundos escuta o mesmo repertório em julho, quase sempre sem lembrar do poema.
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