O poema · Poeta

Carlos Drummond de Andrade: a pedra de 1928 e a briga que ela abriu

Por Redação Poesia do Dia · Poetas · Leitura de 11 minutos

Um seixo cinza de calçada sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Em 1928 a Revista de Antropofagia publicou um poema curto de Carlos Drummond de Andrade. A reação levou décadas para esfriar, e quase nada nela foi elogio.

O poema repete uma pedra e um caminho, trocando a ordem das palavras. A repetição foi lida como preguiça, como erro de revisão, como deboche com quem lia.

Quase quarenta anos depois, Drummond juntou a papelada da briga e devolveu tudo ao público num livro. O título entregava o que ele achava do assunto: Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema, de 1967.

A obra dele segue protegida até 2058, então os poemas não aparecem inteiros aqui. O que aparece é o modo como eles funcionam.

A repetição que leram como erro

O poema de 1928 se abre com a frase que virou a mais repetida da poesia brasileira.

No meio do caminho tinha uma pedra

A linha volta ao longo do texto com os termos invertidos, e a inversão é o poema. Nada acontece com a pedra. Ela não é removida, não é explicada e não é apresentada como símbolo de coisa nenhuma.

Dois pontos incendiaram a crítica. O primeiro foi a repetição: em 1928 o poema ainda era medido pela capacidade de acrescentar, e um texto que insiste na mesma informação parecia texto que não terminou de ser escrito.

O segundo foi o verbo. Escrever "tinha" onde a gramática de escola pedia "havia" era pôr português falado dentro de uma revista de literatura. A escolha soou como provocação, e era.

A briga passou por cima do poema e foi parar no que conta como assunto de poesia. Uma pedra de calçada, sem história e sem lição moral, ganhou um poema inteiro, e a crítica levou uma geração para aceitar a conta.

O gauche: o apelido que ele deu a si mesmo

Alguma Poesia, de 1930, foi o primeiro livro. Ele abre com um poema em que um anjo torto manda o menino ocupar uma posição na vida.

Vai, Carlos, ser gauche na vida

Gauche é o francês para esquerdo, no sentido de desajeitado, o que fica fora do lugar na sala. O poema põe a palavra estrangeira na boca de um anjo, dirige a ordem ao poeta pelo nome de batismo, e o apelido colou na obra inteira.

Como chave de leitura, o gauche vale mais que qualquer rótulo de escola. O sujeito desses poemas está na festa e olha de fora. Está na cidade e não pertence. Comenta a própria participação enquanto participa.

O detalhe que salva o gauche de virar pose é o humor. O desajeitado de Drummond registra o próprio ridículo antes que alguém registre por ele, e a piada chega junto com a queixa.

O eu maior que o mundo

O mesmo poema de abertura fecha pondo o mundo e o coração lado a lado, e declarando o coração maior. A frase é curta, sem argumento nenhum atrás, e o efeito é de desproporção deliberada.

Outra estrofe do texto trata a rima como coisa que não resolve nada: ter uma rima e ter uma solução são coisas diferentes, e o poema diz que só a primeira está disponível.

Nessa primeira fase o eu ocupa o centro do quadro. Ele comenta, ironiza, se diminui, e no verso seguinte volta a crescer. A cidade aparece, a família aparece, o emprego aparece, e tudo passa filtrado por um sujeito que se acha ao mesmo tempo pequeno demais e grande demais para o lugar onde está.

O procedimento tem custo, e Drummond cobrou o custo dele mesmo mais tarde. Um eu que ocupa o quadro inteiro precisa de assunto para não virar espelho.

Itabira, a cidade que não sai dos poemas

Drummond nasceu em Itabira, cidade de minério no interior de Minas Gerais, e a cidade atravessa a obra inteira sem nunca virar cartão-postal.

O tratamento é o oposto da homenagem. A cidade aparece como lugar de onde se saiu, com a família, o pai fazendeiro, a casa grande e o peso do ferro embaixo do chão, e o poema costuma medir a distância em vez de celebrar a origem.

Em Sentimento do Mundo, de 1940, um dos textos assume a forma de confidência de quem nasceu ali e explica a herança do lugar como quem presta contas. A imagem central é a do minério dentro do corpo de quem cresceu naquele solo.

A cidade real seguiu o roteiro do poema. A serra que dava nome ao lugar foi consumida pela extração de ferro ao longo do século 20, e a paisagem descrita nos versos não existe mais na forma como foi vista pelo autor.

Vale a atenção de leitura: quando o nome Itabira aparece, o assunto raramente é geografia. É a matéria de onde o sujeito do poema veio, dura como o minério e igualmente difícil de despachar.

O que muda em Claro Enigma

Claro Enigma, de 1951, vira a mesa. Duas décadas depois de Alguma Poesia, o verso volta a ser medido, as formas fixas voltam, e o soneto reaparece como estrutura de trabalho.

O caso mais visível é "A Máquina do Mundo", escrito em tercetos encadeados, a forma que Dante usou na Comédia. A escolha declara o tamanho da ambição antes da primeira palavra.

O livro traz uma epígrafe de Paul Valéry, e ela avisa quem abre a primeira página de que o acontecimento do dia não vai ser o motor do que vem. Posta logo na entrada, a epígrafe funciona como aviso de mudança de regime.

A dicção sobe junto. O vocabulário fecha, a sintaxe torce, e o poema pede leitura mais lenta que o Drummond de 1930. O humor não desaparece, mas passa a vir seco, embutido na frase séria.

O gauche continua ali, em outro posto. Em vez do desajeitado que atrapalha na festa, aparece o sujeito que examina, que reconhece a própria condição e não pede saída. O título é a instrução: um enigma que se apresenta claro, e continua enigma depois de claro.

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Linha do tempo do poeta

  1. 1902Carlos Drummond de Andrade nasce em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro.
  2. 1928A Revista de Antropofagia publica o poema da pedra, e começa a briga que duraria décadas.
  3. 1930Sai Alguma Poesia, o primeiro livro, em tiragem pequena e custeada pelo próprio autor.
  4. 1934O poeta se muda para o Rio de Janeiro e passa a trabalhar no Ministério da Educação, no gabinete do ministro Gustavo Capanema.
  5. 1940Sentimento do Mundo abre a fase em que o mundo entra no poema.
  6. 1945Sai A Rosa do Povo, o livro mais extenso da obra.
  7. 1951Claro Enigma devolve a forma fixa ao verso e muda o regime da poesia dele.
  8. 1962Aposenta-se do serviço público, depois de anos no órgão federal de patrimônio histórico, e segue publicando crônica em jornal.
  9. 1967Publica Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema, reunindo os ataques recebidos quase quarenta anos antes.
  10. 1987Morre no Rio de Janeiro, em 17 de agosto, doze dias depois da morte da filha única.
  11. 2058A obra entra em domínio público, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte.

Por onde começar a ler

A obra passa de vinte livros de poesia e assusta quem chega pela reunião completa. A ordem cronológica funciona mal como entrada, porque o primeiro livro é o mais irônico e o menos representativo do conjunto.

Comece por Alguma Poesia, de 1930, mas pelo motivo certo: é ali que estão o anjo torto, o gauche e o tom de conversa que fez o nome dele. Leia como quem ouve uma pessoa falando sozinha em voz alta.

Siga para Sentimento do Mundo, de 1940. O livro é curto, o assunto começa a sair de casa e a mudança de mira fica visível em poucas páginas.

Depois vá para A Rosa do Povo, de 1945, que é o volume central. Ele é longo, e a leitura rende mais se for feita aos poucos, começando pelos poemas narrativos.

Claro Enigma, de 1951, pede leitor com estrada. A dicção é fechada, os poemas usam forma fixa, e quem chega ali sem ter lido os anteriores costuma achar o livro frio.

Deixe a prosa para o fim, e ela é uma boa surpresa. As crônicas publicadas em jornal ao longo de décadas mostram o mesmo humor dos versos em regime solto, e servem de descanso entre um volume de poesia e outro.

Uma advertência sobre a internet: circula com o nome dele uma quantidade grande de texto que ele não escreveu, quase sempre em tom de autoajuda. A conferência é simples e resolve o problema: procure o poema numa edição impressa com nome de editora na capa.

Onde ler o texto inteiro

Drummond morreu em 1987. Pela lei brasileira, que conta setenta anos a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, a obra entra em domínio público em 2058. Até lá, o poema inteiro só circula com autorização.

A Companhia das Letras publica hoje os livros avulsos e a poesia reunida, e as edições trazem a fixação de texto conferida. Bibliotecas públicas costumam guardar a Poesia e Prosa em volume único da Nova Aguilar, que serve bem para leitura comparada.

Para a briga de 1928, o volume certo é Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema. É o lugar onde os textos contra o poema estão reunidos, organizados pelo próprio autor do poema atacado.

Hoje a linha aparece em conversa de mesa de bar, em legenda de foto, na boca de quem nunca abriu o livro. A pedra continua no meio do caminho e ninguém a tirou de lá, que foi mais ou menos o combinado desde o começo.

Perguntas frequentes

Quem foi Carlos Drummond de Andrade?

Poeta e cronista brasileiro, nascido em Itabira, Minas Gerais, em 1902, e morto no Rio de Janeiro em 1987. Publicou mais de vinte livros de poesia, trabalhou décadas como funcionário público federal e é considerado o poeta mais influente da língua portuguesa no século 20.

Qual é o poema mais famoso dele?

O da pedra no meio do caminho, publicado na Revista de Antropofagia em 1928. A repetição da mesma imagem, com os termos invertidos, foi lida como erro pela crítica da época e virou o texto mais citado da poesia brasileira.

O que significa ser gauche?

Gauche é o francês para esquerdo, no sentido de desajeitado, quem fica fora de lugar na sala. A palavra aparece na ordem que um anjo torto dá ao menino no primeiro livro, e virou a chave de leitura da obra inteira: o sujeito que está na festa e observa de fora.

Quais são os principais livros?

Alguma Poesia, de 1930, Brejo das Almas, de 1934, Sentimento do Mundo, de 1940, A Rosa do Povo, de 1945, e Claro Enigma, de 1951. Os dois primeiros são de assunto privado e tom irônico; os três seguintes abrem o poema para o mundo e depois fecham a forma.

Por que os poemas não podem ser copiados na íntegra?

Porque a obra segue protegida por direito autoral até 2058, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, ocorrida em 1987. Citar trechos com crédito para comentário é uso aceito; reproduzir o poema inteiro exige autorização.

Onde comprar as edições confiáveis?

A Companhia das Letras publica hoje os livros avulsos e a poesia reunida, com fixação de texto conferida. Para leitura comparada, a Poesia e Prosa em volume único da Nova Aguilar costuma estar disponível em biblioteca pública.

Como saber se um texto atribuído a ele é mesmo dele?

Procure o poema numa edição impressa com nome de editora. Circula muito texto de autoajuda com a assinatura dele em rede social, e a maior parte não está em livro nenhum. Nas edições reunidas, o índice de primeiros versos resolve a dúvida em segundos.

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