O poema · Guia

Verso de amor: quatro declarações e o verso que serve para cada uma

Ocasiões · Leitura de 4 minutos

Uma fita de cetim vinho enrolada num carretel de madeira sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Quem procura um verso de amor quase sempre já sabe o que quer dizer. O que falta é a frase pronta, e a pressa costuma parar na primeira imagem de rede social, sem poeta e sem fonte.

O verso funciona melhor quando ele faz a mesma coisa que a declaração precisa fazer. Prometer é uma tarefa. Sentir falta é outra. Duvidar e garantir permanência são mais duas.

Aqui vão quatro tipos de declaração, com um verso em domínio público para cada um. Todos podem ser copiados à mão, gravados numa aliança ou ditos em voz alta, sem pedir licença a ninguém.

A promessa: o verso que amarra duas partes

Cruz e Sousa fecha o soneto Grande Amor, recolhido no livro póstumo Últimos Sonetos, com um terceto de compromisso.

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.

A palavra que carrega a promessa é selo. Não é uma emoção declarada, é um lacre: a marca que se põe em cima de um acordo para provar que ele foi feito e que continua valendo.

O verbo seguinte confirma o serviço. Prender é ato, tem hora de começar e não tem prazo de acabar, e o destino que ele amarra passa a ser um só para as duas pessoas.

Serve para aniversário de casamento, para carta de pedido e para dedicatória em livro. Cruz e Sousa morreu em 1898 e o texto é livre.

A falta: o verso de quem está longe

Florbela Espanca abre o soneto Fanatismo com duas linhas de ausência. O poema saiu no Livro de Sóror Saudade, de 1923.

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.

A construção mede a falta pelo excesso. A alma se perde de tanto sonhar, os olhos cegam de tanto ver, e em nenhum momento aparece a palavra saudade.

O verbo repetido nas duas linhas é andar. A ausência aparece como movimento sem destino, o que é bem mais preciso do que dizer que está com saudade.

Serve para quem viaja, para namoro a distância e para bilhete deixado em cima da mesa. Florbela morreu em 1930.

A dúvida: o verso de quem trava na hora

Casimiro de Abreu escreveu Amor e medo para explicar por que fugia de quem amava. O poema está em As Primaveras, de 1859.

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O mecanismo é a lista que cresce. Ela começa em quem fala, passa para a outra pessoa, abre para o mundo inteiro e termina em folha seca e relógio.

O efeito vem do tamanho da lista. Um medo nomeado sozinho parece decisão pensada. Uma pilha de medos numa estrofe só parece o que é, alguém procurando desculpa para não dizer a frase.

Serve quando a declaração precisa admitir a hesitação em vez de escondê-la. Casimiro de Abreu morreu em 1860 e o texto é livre.

A permanência: o verso que mede o tempo

Camões contou em soneto os catorze anos de Jacó, sete e mais sete, para ficar com Raquel. O fecho é uma linha só, e cabe gravada por dentro de um anel.

Para tão longo amor tão curta a vida.

A linha promete pouco e entrega muito. Ela reclama que o tempo de vida não dá conta do tamanho do amor, o que é uma declaração mais alta do que qualquer promessa de eternidade.

O soneto está nas Rimas, com o texto fixado por Álvaro J. da Costa Pimpão, em Coimbra, pela Almedina. Camões morreu em 1580.

O crédito cabe numa linha

Verso sem poeta vira frase de para-choque. O crédito não estraga o presente, e ainda entrega ao outro o caminho para ler o poema inteiro depois.

O formato mínimo tem três partes: o nome de quem escreveu, o título do poema e o livro ou o ano. "Camões, do soneto Sete anos de pastor Jacob servia" já resolve, escrito pequeno embaixo da citação.

Confira o verso numa edição, não num site de frase pronta. Texto que circula solto costuma perder acento, trocar palavra e às vezes trocar de autor, e o erro passa para o cartão.

Duas coisas valem o cuidado extra. Copie a acentuação do original, porque tirar acento muda a palavra. E não corte o verso no meio para caber no espaço: se a linha não cabe, escolha outra linha em vez de aparar a que você gostou.

No Brasil, a obra entra em domínio público setenta anos depois de 1º de janeiro do ano seguinte à morte do autor. Os quatro poetas daqui passaram dessa conta com folga, e por essa razão os versos aparecem inteiros nesta página.

Poeta vivo é outro caso. A obra segue protegida, e copiar o poema num convite ou num post não é homenagem, é uso sem licença. Nesse caso, escreva o título, o nome e onde a pessoa encontra o livro.

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Na papelaria, o cartão pequeno vem com espaço para cinco linhas. Cabem os dois versos, o nome do poeta e a data. O resto do trabalho é escolher o envelope e lembrar de levar caneta.

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