O poema · Obra

A Rosa do Povo: o livro em que a rua entrou no poema de Drummond

Obras · Leitura de 4 minutos

Uma chave de ferro antiga sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

A Rosa do Povo saiu em 1945, pela José Olympio, com 55 poemas escritos entre 1943 e 1945.

É o livro mais extenso de Carlos Drummond de Andrade e o que menos fala dele mesmo. O poeta continua dentro do texto, só que deixou de ser o assunto.

O que muda em 1945 não é o talento, é a mira. O poema para de olhar para dentro de casa e passa a olhar pela janela.

O que os livros dos anos 1930 faziam

Alguma Poesia, de 1930, e Brejo das Almas, de 1934, giram em torno de uma pessoa. A cidade pequena, a família, a mesa de jantar, a moça que passa na calçada.

A ironia funciona como defesa, e ela aponta primeiro para dentro. O poema é curto, o assunto é privado, e o final costuma desmontar a emoção que o próprio poema armou.

Sentimento do Mundo, de 1940, começa a virar a chave. O eu continua no centro da frase, mas já divide o poema com uma multidão que não cabe nele. José, de 1942, deixa a dúvida no lugar da resposta.

A diferença aparece na primeira pessoa. Nos livros antigos o eu funciona como filtro, e o mundo entra pela medida dele. Em 1945 o eu vira mais um na rua, com a mesma estatura de quem passa do lado.

A rua entra no poema

Em A Flor e a Náusea, o poema caminha por uma rua cinzenta, preso a uma classe e a um horário, até que uma interrupção acontece:

Uma flor nasceu na rua!

É o único momento de exclamação num poema feito de nojo, e o que ele anuncia é uma planta furando asfalto.

A flor não resolve a rua. Ela continua feia, pequena e ilegal no meio do tráfego, e o poema não promete nada a partir dela.

O livro inteiro trabalha assim. A guerra que corria, o leiteiro morto na madrugada da entrega, o vestido que a mulher guardou no fundo do armário. O material vem da rua e chega ao poema com data.

O volume chega a endereçar gente de fora. Um poema fala com a cidade de Stalingrado, outro fala com Charlie Chaplin, e os dois tratam o destinatário como alguém que pode receber a carta. O poeta que antes conversava com a própria sombra passou a escrever para nomes públicos.

O tamanho da peça acompanha a mudança. O epigrama curto e irônico dos anos 1930 dá lugar a poemas longos, que precisam de fôlego e de página, porque o assunto deixou de caber em quatro versos.

O poema que pergunta se serve para alguma coisa

Procura da Poesia abre com uma ordem seca:

Não faças versos sobre acontecimentos.

A instrução é do poeta para ele mesmo, escrita no meio de um livro cheio de acontecimentos.

A contradição é o assunto. Em 1945 a matéria era grande demais para ser ignorada e grande demais para virar verso de ocasião, e o volume trabalha com o problema em aberto.

Consideração do Poema, do começo do livro, faz o mesmo movimento. Ele examina o ofício antes de exercer o ofício, e o leitor entra pela cozinha em vez da sala.

A dúvida aparece em muitos poemas do volume: se o verso alcança alguém, se ele chega em tempo, se serve de alguma coisa para quem está na fila do pão. Nenhum deles responde em definitivo.

Por que a data importa

Os poemas foram escritos com a Segunda Guerra em curso e o Estado Novo chegando ao fim. A poesia brasileira discutia em público se devia ou não se meter em política, e o livro entra na discussão pela porta da frente.

O título encaixa as duas pontas. A rosa é o material antigo da lírica, o povo é o assunto novo, e a flor deixa de ser objeto de contemplação para virar propriedade de muita gente.

A palavra povo não era neutra em 1945. Ela vinha carregada pela guerra que terminava, pelo regime que caía e pela expectativa de eleição, e quem a punha na capa estava tomando posição sem escrever palavra de ordem.

Nada no volume vira panfleto. O livro duvida em voz alta, inclusive da própria utilidade, e a dúvida é o que mantém os poemas de pé hoje.

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Onde ler, e por que o texto ainda não é livre

A obra de Carlos Drummond de Andrade entra em domínio público em 2058, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, em 1987. Até lá, o texto depende de edição autorizada, e por causa da regra o poema não aparece inteiro nesta página.

A Rosa do Povo circula em volume próprio nas edições da Companhia das Letras, que publica a obra dele no Brasil. Biblioteca pública municipal costuma ter um exemplar na estante de poesia.

O canteiro quebrado

Em qualquer cidade existe uma calçada com a laje levantada por uma planta que ninguém plantou. O carro desvia, o pedestre pisa em volta, a planta segue de pé até a próxima obra.

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