O poema · Obra

A Rosa do Povo: o livro em que a rua entrou no poema de Drummond

Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 11 minutos

Uma chave de ferro antiga sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

A Rosa do Povo saiu em 1945, pela José Olympio, com 55 poemas escritos entre 1943 e 1945.

É o livro mais extenso de Carlos Drummond de Andrade e o que menos fala dele mesmo. O poeta continua dentro do texto, só que deixou de ser o assunto.

O que muda em 1945 não é o talento, é a mira. O poema para de olhar para dentro de casa e passa a olhar pela janela.

O que os livros dos anos 1930 faziam

Alguma Poesia, de 1930, e Brejo das Almas, de 1934, giram em torno de uma pessoa. A cidade pequena, a família, a mesa de jantar, a moça que passa na calçada.

A ironia funciona como defesa, e ela aponta primeiro para dentro. O poema é curto, o assunto é privado, e o final costuma desmontar a emoção que o próprio poema armou.

Sentimento do Mundo, de 1940, começa a virar a chave. O eu continua no centro da frase, mas já divide o poema com uma multidão que não cabe nele. José, de 1942, deixa a dúvida no lugar da resposta.

A diferença aparece na primeira pessoa. Nos livros antigos o eu funciona como filtro, e o mundo entra pela medida dele. Em 1945 o eu vira mais um na rua, com a mesma estatura de quem passa do lado.

A rua entra no poema

Em A Flor e a Náusea, o poema caminha por uma rua cinzenta, preso a uma classe e a um horário, até que uma interrupção acontece:

Uma flor nasceu na rua!

É o único momento de exclamação num poema feito de nojo, e o que ele anuncia é uma planta furando asfalto.

A flor não resolve a rua. Ela continua feia, pequena e ilegal no meio do tráfego, e o poema não promete nada a partir dela.

O livro inteiro trabalha assim. A guerra que corria, o leiteiro morto na madrugada da entrega, o vestido que a mulher guardou no fundo do armário. O material vem da rua e chega ao poema com data.

O volume chega a endereçar gente de fora. Um poema fala com a cidade de Stalingrado, outro fala com Charlie Chaplin, e os dois tratam o destinatário como alguém que pode receber a carta. O poeta que antes conversava com a própria sombra passou a escrever para nomes públicos.

O tamanho da peça acompanha a mudança. O epigrama curto e irônico dos anos 1930 dá lugar a poemas longos, que precisam de fôlego e de página, porque o assunto deixou de caber em quatro versos.

Os oito poemas que sustentam o volume

Cinquenta e cinco poemas assustam quem abre o livro pela primeira vez. Oito deles concentram o que o volume tem de próprio, e servem de porta de entrada.

Consideração do Poema abre o livro examinando o ofício antes de exercê-lo. Procura da Poesia dá a ordem seca de não fazer versos sobre acontecimentos, e é o texto mais citado do volume em sala de aula.

A Flor e a Náusea é o poema da planta que fura o asfalto, e o mais antologiado dos cinquenta e cinco. Nosso Tempo faz o retrato do período em blocos numerados, com o verso sobre o tempo de homens partidos.

Morte do Leiteiro conta um caso policial em ritmo de romance popular: o entregador de madrugada, o tiro do morador assustado, o leite escorrendo com o sangue na calçada. Caso do Vestido põe uma família inteira para falar em torno de uma roupa guardada, e é o poema mais narrativo do livro.

Carta a Stalingrado endereça a cidade russa sitiada como quem escreve para uma pessoa. Áporo faz o caminho contrário, todo fechado sobre si mesmo, e prova que o livro do assunto público continua sabendo escrever cifrado.

A ordem de leitura mais confortável não é a do sumário. Comece pelos narrativos, siga para os de rua e deixe Procura da Poesia e Consideração do Poema para depois, quando a discussão sobre o ofício já tiver contexto.

A newsletter Poesia do Dia está em preparação

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.

O poema que pergunta se serve para alguma coisa

Procura da Poesia abre com uma ordem seca:

Não faças versos sobre acontecimentos.

A instrução é do poeta para ele mesmo, escrita no meio de um livro cheio de acontecimentos.

A contradição é o assunto. Em 1945 a matéria era grande demais para ser ignorada e grande demais para virar verso de ocasião, e o volume trabalha com o problema em aberto.

Consideração do Poema, do começo do livro, faz o mesmo movimento. Ele examina o ofício antes de exercer o ofício, e o leitor entra pela cozinha em vez da sala.

A dúvida aparece em muitos poemas do volume: se o verso alcança alguém, se ele chega em tempo, se serve de alguma coisa para quem está na fila do pão. Nenhum deles responde em definitivo.

Por que a data importa

Os poemas foram escritos com a Segunda Guerra em curso e o Estado Novo chegando ao fim. A poesia brasileira discutia em público se devia ou não se meter em política, e o livro entra na discussão pela porta da frente.

O título encaixa as duas pontas. A rosa é o material antigo da lírica, o povo é o assunto novo, e a flor deixa de ser objeto de contemplação para virar propriedade de muita gente.

A palavra povo não era neutra em 1945. Ela vinha carregada pela guerra que terminava, pelo regime que caía e pela expectativa de eleição, e quem a punha na capa estava tomando posição sem escrever palavra de ordem.

Nada no volume vira panfleto. O livro duvida em voz alta, inclusive da própria utilidade, e a dúvida é o que mantém os poemas de pé hoje.

A forma que a rua obrigou

Assunto novo pediu verso novo, e a mudança de 1945 aparece antes do sentido, na linha.

O verso estica. O epigrama de quatro linhas dos anos 1930 dá lugar a poemas de páginas, com a frase correndo de um verso para o outro sem parar na margem, o que a métrica chama de enjambement.

A rima quase desaparece. O que segura o ritmo passa a ser a repetição de estrutura: começos de verso iguais, listas encadeadas, a mesma fórmula voltando com uma palavra trocada.

A enumeração vira o motor. O poema arrola objetos, ofícios, ruas e datas até que o acúmulo produza o peso que uma imagem sozinha não produziria, procedimento que aparece com força nos poemas de retrato do tempo.

A sintaxe se aproxima da prosa e não chega nela. As frases são inteiras, com sujeito e verbo no lugar, e o corte do verso é o que impede o texto de virar crônica: a quebra decide onde o leitor respira, e a respiração muda o sentido da mesma frase.

A consequência para quem lê em voz alta é prática. Poema longo com verso corrido não aceita leitura em tom de declamação: pede voz de quem informa, com pausa curta na quebra e pausa longa no ponto final.

Linha do tempo do poeta até o livro

  1. 1930Sai Alguma Poesia, o primeiro livro, com a cidade pequena e a família no centro do poema.
  2. 1934Brejo das Almas leva a ironia ao limite, em poema curto e assunto privado.
  3. 1940Sentimento do Mundo abre a virada: o eu divide o poema com uma multidão.
  4. 1942José deixa a pergunta sem resposta no lugar do desfecho.
  5. 1943Drummond começa a escrever os poemas que formariam o volume seguinte.
  6. 1945A Segunda Guerra termina na Europa em maio, o Estado Novo cai em outubro, e A Rosa do Povo chega às livrarias pela José Olympio no mesmo ano.
  7. 1951Claro Enigma muda de novo o rumo, com forma fechada e assunto recolhido.
  8. 1987Carlos Drummond de Andrade morre no Rio de Janeiro, aos 84 anos.
  9. 2058A obra dele entra em domínio público, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte.

O erro comum de leitura

O livro carrega a palavra povo no título e é lido, com frequência, como poesia de partido. A leitura não se sustenta na página.

Registros biográficos mostram Drummond próximo da imprensa de esquerda em 1945, no ano de publicação. Nada dessa proximidade vira palavra de ordem nos poemas: o volume duvida da própria utilidade em pelo menos três textos, e a dúvida seria indefensável num panfleto.

O erro simétrico também aparece. Quem lê apenas Áporo e Procura da Poesia conclui que o volume é hermético e ignora o leiteiro morto na calçada, que é narrativa direta e sem cifra.

A leitura que aguenta o livro inteiro aceita as duas mãos. O poeta tomou posição e continuou desconfiando do próprio instrumento, e é a tensão entre as duas coisas que faz o volume durar.

Um teste rápido resolve a dúvida: procure no livro uma promessa de futuro. Não existe nenhuma escrita sem ressalva, e é por não prometer que o texto envelheceu tão devagar.

Onde ler, e por que o texto ainda não é livre

A obra de Carlos Drummond de Andrade entra em domínio público em 2058, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, em 1987. Até lá, o texto depende de edição autorizada, e por causa da regra o poema não aparece inteiro nesta página.

A Rosa do Povo circula em volume próprio nas edições da Companhia das Letras, que publica a obra dele no Brasil. Biblioteca pública municipal costuma ter um exemplar na estante de poesia.

O canteiro quebrado

Em qualquer cidade existe uma calçada com a laje levantada por uma planta que ninguém plantou. O carro desvia, o pedestre pisa em volta, a planta segue de pé até a próxima obra.

Perguntas frequentes

Em que ano A Rosa do Povo foi publicado?

Em 1945, pela editora José Olympio, com 55 poemas escritos entre 1943 e 1945. É o livro mais extenso de Carlos Drummond de Andrade e chegou às livrarias no ano em que a Segunda Guerra terminou e o Estado Novo caiu.

Qual o significado do título?

O título junta as duas pontas do livro. A rosa é o material antigo da poesia lírica, o povo é o assunto novo que entra no volume, e a flor deixa de ser objeto de contemplação privada para virar coisa de muita gente.

Quais são os principais poemas do livro?

A Flor e a Náusea, Procura da Poesia, Consideração do Poema, Nosso Tempo, Morte do Leiteiro, Caso do Vestido, Carta a Stalingrado e Áporo. Os quatro primeiros discutem o ofício e o tempo; os demais contam casos e endereçam destinatários de fora.

Qual a diferença entre A Rosa do Povo e os livros anteriores?

A mira. Em Alguma Poesia e Brejo das Almas o eu funciona como filtro e o assunto é privado. Em 1945 o eu vira mais um na rua, os poemas ficam longos e o material passa a vir de fora de casa, com data e endereço.

A Rosa do Povo é um livro político?

Ele toma posição e não vira panfleto. O volume duvida em voz alta da utilidade do próprio verso em vários poemas, e nenhuma promessa de futuro aparece sem ressalva. Ler o livro como programa de partido é ignorar metade das páginas.

O texto dos poemas está em domínio público?

Ainda não. A obra de Drummond entra em domínio público em 2058, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, ocorrida em 1987. Até lá a leitura depende de edição autorizada.

Onde comprar ou ler o livro?

A Rosa do Povo circula em volume próprio pela Companhia das Letras, que publica a obra de Drummond no Brasil, e também dentro das reuniões de poesia completa. Biblioteca pública municipal costuma manter exemplar na estante de poesia brasileira.

Poesia do Dia está chegando

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.