O poema · Obra

Morte e Vida Severina: como o auto de Natal foi armado

Por Redação Poesia do Dia · Obras · Leitura de 11 minutos

Um chapéu de palha de aba curta e gasto sozinho numa mesa de madeira escura, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Morte e Vida Severina tem um subtítulo que quase ninguém lê e que entrega o final: auto de Natal pernambucano.

Auto é peça em verso feita para ser dita em voz alta por várias vozes, e o auto de Natal, na tradição ibérica, termina em nascimento. Quem sabe o que é um auto de Natal sabe onde o texto vai parar antes da primeira fala.

João Cabral de Melo Neto escreveu o texto entre 1954 e 1955. A obra segue protegida até 2070, então o poema não aparece aqui. O que aparece é a planta dele.

O que a palavra auto promete antes da primeira fala

A forma vem do teatro ibérico, de Gil Vicente para cá: peça curta, escrita em verso, com personagens que se anunciam e falas divididas entre eles. O texto de João Cabral mantém a estrutura, com indicações de cena que dizem quem fala e a que veio.

A consequência é grande e costuma passar despercebida. Num auto de Natal o desfecho está contratado, então o suspense muda de lugar. A pergunta deixa de ser o que vai acontecer e vira quanto o texto vai cobrar para chegar até lá.

O título já divide o trabalho em dois tempos. Morte primeiro, vida depois, com a palavra severina emendada nas duas. A ordem das palavras é o roteiro.

A descida do Capibaribe

O retirante sai da serra, no agreste, e desce seguindo o rio na direção do mar, procurando lugar onde a vida seja possível. A geografia faz o serviço do enredo.

O rio é o fio e o relógio ao mesmo tempo. Enquanto ele corre, o retirante anda. Quando ele some ou se espalha, o retirante para, e é sempre na parada que alguém aparece.

A paisagem muda em três tempos: a terra seca do começo, a Zona da Mata com o canavial, e o mangue do Recife no fim. Cada tempo traz um tipo de trabalho e um tipo de morte, e a mudança de cenário funciona como mudança de argumento.

O nome do personagem faz o resto. Severino é nome de gente, e severina, no título, virou adjetivo. A palavra sai do batismo de um homem e passa a nomear uma condição que muita gente divide.

Os encontros com a morte

A cada parada o retirante encontra uma cena de morte, e cada cena tem um jeito próprio de tratar o morto.

  • Uma mulher na janela canta as excelências, o canto de encomendação que se fazia sobre o defunto. O retirante pergunta, ela responde, e a conversa é a apresentação do lugar.
  • Dois homens carregam um defunto e conversam entre si sobre a cova, o caminho e o peso. O morto vai junto e não participa.
  • Um lavrador é enterrado, e a cova que ele recebe tem o tamanho da terra que ele teve em vida. A medida é o argumento inteiro da cena.
  • Pelo caminho aparecem ofertas de trabalho, e o trabalho oferecido gira sempre em torno do enterro dos outros.

O acúmulo produz a tese sem que ninguém precise enunciá-la. Naquela travessia, morrer deixa de ser evento e vira ofício, paisagem e rotina. É a repetição que convence, e não a denúncia.

No Recife, já perto do fim, o retirante chega ao ponto mais baixo e considera se atirar no rio. A conversa que segura a mão dele acontece com Seu José, mestre carpina, um homem que trabalha com madeira e responde com poucas palavras.

A virada: o nascimento no fim

A criança nasce num barraco à beira do rio, e o auto cumpre a promessa do subtítulo.

Os vizinhos chegam com presentes, e os presentes são de pobreza: coisas do mangue e do trabalho, no lugar do ouro, do incenso e da mirra. A natividade é citada por dentro e virada do avesso. O presépio é palafita, os magos são vizinhos, e a oferta é o que estava na mão.

A resposta que o texto dá à pergunta do retirante não vem em forma de discurso. Vem em forma de fato: uma vida acabou de começar naquele lugar, com aquelas condições, e continua começando.

O que o auto recusa é a promessa de melhora. Nada nas condições em volta muda com o nascimento. A virada acontece na existência da criança, e o texto para exatamente ali, sem prometer o segundo passo.

A redondilha maior, o verso de sete sílabas do romanceiro

Redondilha maior é o verso de sete sílabas, o metro do romanceiro popular ibérico, das cantigas de roda e das quadras que se aprendem sem estudar.

A conta funciona assim: ela para na última sílaba tônica do verso, e vogais que se encontram entre palavras se fundem num tempo só. O primeiro verso do retirante mostra a regra em funcionamento.

O meu nome é Severino,

O / meu / no / me é / Se / ve / ri: sete tempos, com "nome é" fundido no quarto, e a conta parando na tônica de Severino. A primeira coisa que o personagem entrega é o nome, e o nome logo se revela nome de muita gente.

A rima acompanha a escolha. O texto trabalha com rima toante, aquela em que só a vogal tônica coincide, que é a rima do verso popular e soa mais frouxa que a rima perfeita da tradição erudita.

O efeito em voz alta é o que interessa. O verso curto obriga a frase a caber, e a que não cabe quebra e continua na linha seguinte. O resultado é um bater seco e regular, que segura o texto de pé mesmo quando a matéria é fome e enterro. João Cabral pegou o metro mais leve da língua e pôs nele o assunto mais pesado que tinha.

A newsletter Poesia do Dia está em preparação

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.

Linha do tempo da obra

  1. 1920João Cabral de Melo Neto nasce no Recife, em janeiro.
  2. 1942Estreia em livro com Pedra do Sono, ainda longe da dicção seca que o tornaria conhecido.
  3. 1954Começa a escrever o auto, trabalho que se estende pelo ano seguinte.
  4. 1956O texto chega ao público reunido no volume Duas Águas, ao lado de outros poemas do período.
  5. 1965O Teatro da Universidade Católica de São Paulo monta o auto com música composta por Chico Buarque, na produção que levaria o texto ao país inteiro.
  6. 1966A montagem é premiada num festival de teatro universitário na França, e a repercussão internacional volta como notícia no Brasil.
  7. 1981Uma adaptação para a televisão brasileira leva o auto a um público de massa, em horário nobre.
  8. 1999João Cabral morre no Rio de Janeiro, em outubro.
  9. 2070A obra entra em domínio público, pela contagem de setenta anos a partir do ano seguinte à morte.

A montagem que tirou o auto do papel

O texto foi escrito para ser dito por várias vozes, e passou dez anos sem palco. A estreia que mudou o destino dele aconteceu em 1965, numa produção universitária em São Paulo.

A música foi composta por um Chico Buarque de vinte anos, então praticamente desconhecido, e a trilha ficou tão colada ao texto que boa parte dos leitores hoje ouve as canções ao ler as falas. O canto do enterro do lavrador é a peça mais lembrada do conjunto.

O contexto explica a força da montagem. O país estava sob ditadura militar havia um ano, e um auto sobre fome, morte e trabalho no campo, cantado por estudantes, foi recebido como declaração pública.

A produção rodou o Brasil, foi premiada num festival de teatro universitário na França em 1966 e voltou com selo internacional. Depois vieram adaptações para televisão, para o cinema de animação e para os quadrinhos.

A consequência para o leitor de hoje é de método. Ouvir uma gravação da montagem antes de ler é um bom atalho, porque o auto foi feito para o ouvido e a divisão em vozes fica evidente na hora.

As perguntas que a escola faz

O auto é presença fixa em vestibular, e o repertório de perguntas se repete com pouca variação.

A primeira pede o gênero. É um auto de Natal pernambucano, forma vinda do teatro ibérico, escrita em verso e feita para ser dita por várias vozes, com desfecho contratado desde o subtítulo.

A segunda pergunta pelo metro. O texto usa a redondilha maior, o verso de sete sílabas do romanceiro popular, com rima toante, aquela em que só a vogal tônica coincide.

A terceira mira o significado do nome. Severino é nome de batismo comum, e severina, no título, funciona como adjetivo: a palavra sai da pessoa e passa a nomear uma condição coletiva.

A quarta trata do percurso. O retirante desce o Capibaribe da serra para o mar, e a paisagem muda em três tempos, terra seca, canavial e mangue, com um tipo de morte em cada um.

A quinta pergunta pelo desfecho. O nascimento não promete melhora nenhuma nas condições em volta: a resposta do texto é a existência da criança, e o auto termina exatamente ali.

Onde ler o texto inteiro

João Cabral morreu em 1999. Pela lei brasileira, que conta setenta anos a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, a obra entra em domínio público em 2070. Até lá, o texto integral circula só com autorização.

A Obra Completa, organizada por Marly de Oliveira e publicada pela Nova Aguilar, reúne o auto junto do resto da poesia e serve para leitura comparada. Edições avulsas do texto circulam há décadas em livrarias e em bibliotecas de escola, e é a forma mais barata de ter o poema em casa.

Quem mora perto de rio grande conhece o cheiro que sobe do mangue no fim da tarde. O auto termina ali, num barraco de palafita, com gente entrando para ver um menino recém-nascido e trazendo na mão o que tinha em casa.

Perguntas frequentes

Qual é o resumo de Morte e Vida Severina?

Um retirante chamado Severino sai da serra pernambucana e desce o rio Capibaribe em direção ao mar, procurando lugar onde a vida seja possível. A cada parada ele encontra uma cena de morte. No Recife, já no fundo do poço, assiste ao nascimento de uma criança num barraco à beira do rio.

O que significa a palavra severina no título?

Severino é nome de batismo comum no Nordeste, e severina, no título, funciona como adjetivo. A palavra sai da pessoa e passa a nomear uma condição dividida por muita gente: a vida severina é a vida marcada pela severidade das condições.

Por que o texto é chamado de auto de Natal?

Porque segue a forma do teatro ibérico: peça curta em verso, com falas divididas entre personagens que se anunciam, e desfecho em nascimento. O subtítulo entrega o final antes da primeira fala, e o suspense passa a ser quanto o texto vai cobrar para chegar até lá.

Qual é o verso usado no poema?

A redondilha maior, o verso de sete sílabas do romanceiro popular ibérico, contadas até a última tônica. A rima é toante, aquela em que só a vogal tônica coincide, e o resultado é um bater seco e regular sobre matéria pesada.

Quem musicou Morte e Vida Severina?

Chico Buarque, então com vinte anos, para a montagem do Teatro da Universidade Católica de São Paulo em 1965. A trilha ficou associada ao texto de forma permanente, e o canto do enterro do lavrador é a peça mais lembrada do conjunto.

O final é otimista?

Não do jeito que costuma ser lido. Nada nas condições em volta muda com o nascimento, e o texto não promete melhora. A resposta do auto à pergunta do retirante é a existência da criança naquele lugar, e a peça termina exatamente ali.

O texto pode ser copiado num trabalho de escola?

Trechos com crédito, para comentário, sim. A obra de João Cabral segue protegida por direito autoral até 2070, setenta anos contados a partir do ano seguinte à morte do autor, em 1999, então reprodução integral exige autorização da editora.

Poesia do Dia está chegando

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.