O poema · Obra

Morte e Vida Severina: como o auto de Natal foi armado

Obras · Leitura de 5 minutos

Um chapéu de palha de aba curta e gasto sozinho numa mesa de madeira escura, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Morte e Vida Severina tem um subtítulo que quase ninguém lê e que entrega o final: auto de Natal pernambucano.

Auto é peça em verso feita para ser dita em voz alta por várias vozes, e o auto de Natal, na tradição ibérica, termina em nascimento. Quem sabe o que é um auto de Natal sabe onde o texto vai parar antes da primeira fala.

João Cabral de Melo Neto escreveu o texto entre 1954 e 1955. A obra segue protegida até 2070, então o poema não aparece aqui. O que aparece é a planta dele.

O que a palavra auto promete antes da primeira fala

A forma vem do teatro ibérico, de Gil Vicente para cá: peça curta, escrita em verso, com personagens que se anunciam e falas divididas entre eles. O texto de João Cabral mantém a estrutura, com indicações de cena que dizem quem fala e a que veio.

A consequência é grande e costuma passar despercebida. Num auto de Natal o desfecho está contratado, então o suspense muda de lugar. A pergunta deixa de ser o que vai acontecer e vira quanto o texto vai cobrar para chegar até lá.

O título já divide o trabalho em dois tempos. Morte primeiro, vida depois, com a palavra severina emendada nas duas. A ordem das palavras é o roteiro.

A descida do Capibaribe

O retirante sai da serra, no agreste, e desce seguindo o rio na direção do mar, procurando lugar onde a vida seja possível. A geografia faz o serviço do enredo.

O rio é o fio e o relógio ao mesmo tempo. Enquanto ele corre, o retirante anda. Quando ele some ou se espalha, o retirante para, e é sempre na parada que alguém aparece.

A paisagem muda em três tempos: a terra seca do começo, a Zona da Mata com o canavial, e o mangue do Recife no fim. Cada tempo traz um tipo de trabalho e um tipo de morte, e a mudança de cenário funciona como mudança de argumento.

O nome do personagem faz o resto. Severino é nome de gente, e severina, no título, virou adjetivo. A palavra sai do batismo de um homem e passa a nomear uma condição que muita gente divide.

Os encontros com a morte

A cada parada o retirante encontra uma cena de morte, e cada cena tem um jeito próprio de tratar o morto.

  • Uma mulher na janela canta as excelências, o canto de encomendação que se fazia sobre o defunto. O retirante pergunta, ela responde, e a conversa é a apresentação do lugar.
  • Dois homens carregam um defunto e conversam entre si sobre a cova, o caminho e o peso. O morto vai junto e não participa.
  • Um lavrador é enterrado, e a cova que ele recebe tem o tamanho da terra que ele teve em vida. A medida é o argumento inteiro da cena.
  • Pelo caminho aparecem ofertas de trabalho, e o trabalho oferecido gira sempre em torno do enterro dos outros.

O acúmulo produz a tese sem que ninguém precise enunciá-la. Naquela travessia, morrer deixa de ser evento e vira ofício, paisagem e rotina. É a repetição que convence, e não a denúncia.

No Recife, já perto do fim, o retirante chega ao ponto mais baixo e considera se atirar no rio. A conversa que segura a mão dele acontece com Seu José, mestre carpina, um homem que trabalha com madeira e responde com poucas palavras.

A virada: o nascimento no fim

A criança nasce num barraco à beira do rio, e o auto cumpre a promessa do subtítulo.

Os vizinhos chegam com presentes, e os presentes são de pobreza: coisas do mangue e do trabalho, no lugar do ouro, do incenso e da mirra. A natividade é citada por dentro e virada do avesso. O presépio é palafita, os magos são vizinhos, e a oferta é o que estava na mão.

A resposta que o texto dá à pergunta do retirante não vem em forma de discurso. Vem em forma de fato: uma vida acabou de começar naquele lugar, com aquelas condições, e continua começando.

O que o auto recusa é a promessa de melhora. Nada nas condições em volta muda com o nascimento. A virada acontece na existência da criança, e o texto para exatamente ali, sem prometer o segundo passo.

A redondilha maior, o verso de sete sílabas do romanceiro

Redondilha maior é o verso de sete sílabas, o metro do romanceiro popular ibérico, das cantigas de roda e das quadras que se aprendem sem estudar.

A conta funciona assim: ela para na última sílaba tônica do verso, e vogais que se encontram entre palavras se fundem num tempo só. O primeiro verso do retirante mostra a regra em funcionamento.

O meu nome é Severino,

O / meu / no / me é / Se / ve / ri: sete tempos, com "nome é" fundido no quarto, e a conta parando na tônica de Severino. A primeira coisa que o personagem entrega é o nome, e o nome logo se revela nome de muita gente.

A rima acompanha a escolha. O texto trabalha com rima toante, aquela em que só a vogal tônica coincide, que é a rima do verso popular e soa mais frouxa que a rima perfeita da tradição erudita.

O efeito em voz alta é o que interessa. O verso curto obriga a frase a caber, e a que não cabe quebra e continua na linha seguinte. O resultado é um bater seco e regular, que segura o texto de pé mesmo quando a matéria é fome e enterro. João Cabral pegou o metro mais leve da língua e pôs nele o assunto mais pesado que tinha.

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Onde ler o texto inteiro

João Cabral morreu em 1999. Pela lei brasileira, que conta setenta anos a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, a obra entra em domínio público em 2070. Até lá, o texto integral circula só com autorização.

A Obra Completa, organizada por Marly de Oliveira e publicada pela Nova Aguilar, reúne o auto junto do resto da poesia e serve para leitura comparada. Edições avulsas do texto circulam há décadas em livrarias e em bibliotecas de escola, e é a forma mais barata de ter o poema em casa.

Quem mora perto de rio grande conhece o cheiro que sobe do mangue no fim da tarde. O auto termina ali, num barraco de palafita, com gente entrando para ver um menino recém-nascido e trazendo na mão o que tinha em casa.

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