O poema · Guia

Estrofes e versos: os cinco elementos que mudam a leitura em voz alta

Ofício · Leitura de 5 minutos

Um diapasão de metal sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

Verso é a linha. Estrofe é o bloco de linhas separado por espaço em branco. As duas definições cabem numa frase e explicam pouco do que interessa.

O que interessa acontece na boca. Cada decisão de forma manda em alguma coisa concreta na hora de dizer o poema em voz alta: onde parar, quanto tempo parar, onde a voz sobe, onde ela não pode cair.

Abaixo estão cinco elementos, do maior para o menor, com o efeito audível de cada um e um exemplo em domínio público para conferir com a voz.

A linha: onde o poeta manda respirar

Na prosa a linha quebra onde a página termina, por acaso. No verso ela quebra onde o poeta decidiu, e a decisão é uma instrução de respiração deixada para quem vai ler.

Exemplo, de Casimiro de Abreu, no poema "Meus oito anos", reunido em As Primaveras (1859):

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

A mesma frase em linha corrida perderia três pausas. Do jeito que está, ela entrega um dado por vez: primeiro o sentimento, depois a hora do dia, depois a idade, e só no fim a sentença de que não volta.

Efeito audível: no fim de cada verso, faça uma pausa menor que a de uma vírgula. O ouvido de quem escuta acompanha a divisão sem precisar ver a página. Casimiro de Abreu morreu em 1860 e o texto está em domínio público.

A estrofe: o bloco que corta para outro plano

Estrofe é o conjunto de versos separado do próximo por linha em branco. Os nomes vêm do tamanho: dístico tem dois versos, terceto tem três, quarteto tem quatro, quintilha cinco, sextilha seis, oitava oito, décima dez.

O que ela faz é mudar de cena. Trocar de estrofe funciona como corte de plano no cinema, e a linha em branco é a duração do corte.

Exemplo, de Alphonsus de Guimaraens, no poema "Ismália":

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

O quarteto abre, situa a personagem, entrega a imagem dupla e para. A estrofe seguinte muda o plano. O poema inteiro anda por blocos fechados, um passo de enredo em cada um, e a pausa entre eles pertence ao texto tanto quanto as palavras.

Efeito audível: a linha em branco vale uma respiração inteira, bem mais longa que a do fim do verso. Poema escrito num bloco só, sem divisão, produz o efeito contrário, de fala que não deixa espaço para interrupção. Alphonsus morreu em 1921 e o texto é livre.

A contagem de sílabas: a conta que para na última tônica

Sílaba poética e sílaba gramatical são coisas diferentes, e duas regras respondem por quase toda a diferença.

  • A conta para na última sílaba tônica do verso. O que vem depois dela existe na boca e não existe na conta.
  • Vogais que se encontram entre duas palavras se fundem num tempo só, o que a tradição chama de elisão.

Os nomes que mais aparecem: redondilha menor tem cinco sílabas, redondilha maior tem sete, o decassílabo tem dez, e o alexandrino tem doze com uma pausa obrigatória depois da sexta.

O primeiro verso de Ismália, citado acima, é redondilha maior. A conta fica assim: quan / do is / má / lia en / lou / que / ceu. Sete tempos, com dois encontros de vogais fundidos no caminho, e a conta parando na tônica de enlouqueceu.

O decassílabo aparece no soneto de Olavo Bilac sobre a língua portuguesa, do livro Tarde, publicado em 1919:

Última flor do Lácio, inculta e bela,

Úl / ti / ma / flor / do / lá / cio in / cul / ta e / be: dez tempos, também com dois encontros fundidos, parando na tônica de bela.

Efeito audível: metro fixo cria um bater regular por baixo do sentido. Quando um verso sai da conta, quem escuta percebe o tropeço sem saber nomear a causa. No verso livre a conta não existe, o ritmo vem da frase e da quebra, e a leitura em voz alta fica mais próxima da fala comum.

A rima: o encontro que o ouvido espera

Rima é a coincidência de som a partir da última sílaba tônica. O esquema se anota com letras, uma por som: ABAB alterna, AABB emparelha em duplas, ABBA abraça o miolo.

Exemplo, de Augusto dos Anjos, no poema "Psicologia de um Vencido", do livro Eu (1912):

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

O esquema é ABBA, com o par de fora juntando amoníaco e zodíaco, duas palavras que nenhuma conversa põe lado a lado. O ouvido registra a proeza antes de entender a frase, e o poema ganha ar de máquina montada com peça rara.

Efeito audível: a rima cria expectativa e cobra o pagamento no lugar marcado. Quem lê não precisa reforçar a rima com a voz, porque ela chega sozinha. Reforçar demais transforma o poema em cantiga de roda. Augusto dos Anjos morreu em 1914 e o texto é livre.

O enjambement: a frase que não termina no fim do verso

Enjambement, também chamado de cavalgamento, é a frase que atravessa a quebra e só se completa no verso seguinte.

Exemplo, de Fernando Pessoa, no poema "Autopsicografia", publicado em 1931:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

As duas últimas linhas formam uma frase só, e a quebra cai justamente entre uma dor e a outra. Quem lê fica preso entre duas ordens contrárias: a frase pede continuidade, a linha pede pausa.

Efeito audível: a saída é uma suspensão curta, com a voz mantida no alto. A voz que cai no fim do terceiro verso quebra a frase ao meio e o quarteto perde o sentido. Quando a frase acaba junto com a linha, o poema anda em degraus. Pessoa morreu em 1935 e o texto é livre.

Os cinco juntos, na hora de ler

A ordem de preparo que funciona é quase sempre a mesma.

  • Leia o poema inteiro em silêncio, uma vez, só para achar onde as frases terminam de verdade. Elas raramente terminam onde as linhas terminam.
  • Marque no papel dois sinais diferentes: um para a quebra que fecha e outro para a quebra que continua. Os dois pedem voz diferente.
  • Conte as sílabas de um ou dois versos, o bastante para descobrir o passo do texto. Feita a descoberta, esqueça a conta.
  • Deixe a rima em paz. Ela funciona sozinha e piora quando recebe ajuda.

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Numa mesa de cozinha, com o poema aberto na frente e alguém do outro lado ouvindo, os cinco elementos aparecem sem nome. A pessoa para onde a frase pede, respira onde o branco manda, e a contagem de sílabas some, virando só o passo com que o texto anda até o fim.

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