O poema · Poeta

Maiakóvski: a escada de versos e o poema feito para a praça

Por Redação Poesia do Dia · Poetas · Leitura de 11 minutos

Um megafone de metal pequeno sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

A poesia de Vladímir Maiakóvski é reconhecida antes de ser lida. A linha desce a página em degraus, e o desenho faz parte do texto.

A obra dele em russo está em domínio público no Brasil desde 2001, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte, em 1930. As traduções brasileiras são outra história: cada tradução tem direito próprio, e as versões mais conhecidas por aqui, dos anos 1960, seguem protegidas. Por causa da regra, nenhum verso traduzido aparece nesta página.

O que dá para mostrar aqui é a máquina do verso, que continua funcionando em qualquer idioma.

A escada

A partir de 1923 ele passou a quebrar o verso em degraus. A linha se parte em pedaços, e cada pedaço começa mais para a direita, onde o pedaço anterior terminou.

O desenho não é enfeite gráfico. Ele marca a divisão da fala: onde a voz para, onde ela volta, quanto tempo dura o silêncio entre um bloco e outro. É notação, do mesmo jeito que a pausa escrita numa partitura.

Um exemplo montado aqui só para mostrar o formato, sem verso de ninguém:

a frase começa
depois desce um degrau
e cai no chão

Lido em silêncio, o corte parece capricho de página. Dito em voz alta, ele vira respiração, e a frase chega ao ouvinte em três golpes no lugar de um.

A escada também resolve um problema prático de quem lê em público. Ela mostra, de longe e no papel, onde o poeta vai respirar.

Quem abre Maiakóvski pela primeira vez costuma tropeçar na página e achar o formato arbitrário. O caminho curto é ler em voz alta logo na primeira tentativa, obedecendo ao degrau, porque a forma foi armada para o ouvido antes da vista.

O verso feito para a praça

Maiakóvski escrevia para ser ouvido, e o público não estava sentado. A leitura acontecia em fábrica, em clube operário, em comício, e o evento era a voz dele.

A forma responde ao lugar. Frase curta, palavra concreta, verbo forte, imagem que se entende na primeira passada. Em praça não existe segunda passada: quem não pegou o verso na hora perdeu o verso.

O grupo veio do futurismo russo. O manifesto de 1912, Uma Bofetada no Gosto Público, assinado por ele e por outros três poetas, propunha jogar Púchkin, Dostoiévski e Tolstói do navio da modernidade. A frase era provocação calculada, e serviu de porta de entrada para o que veio depois.

O trabalho dele não parou no livro. Ele escreveu texto de cartaz, legenda de desenho e verso de propaganda, com rima curta feita para ser lida de longe, na parede. Poesia, ali, tinha função de utilidade pública, e a mesma técnica servia para o comício e para o anúncio.

Como ler um poema em escada em voz alta

A página assusta na primeira vez, e o método de leitura cabe em cinco instruções.

Trate cada degrau como um bloco de fala. A voz entrega o bloco inteiro sem pausa interna, para no fim dele e retoma no degrau seguinte.

Meça a pausa pelo tamanho do recuo. Degrau curto pede parada curta; bloco isolado na linha, com muito espaço em branco à esquerda, pede silêncio maior antes de começar.

Não desça o tom no fim de cada degrau. A frase continua, e a voz que cai avisa o ouvinte de um ponto final que não existe ali.

Guarde o fôlego para o último degrau da frase. É onde costuma estar a palavra que carrega o sentido, e ela precisa chegar inteira, sem sobra de ar.

Ensaie de pé, e não sentado. A forma foi escrita para quem lê em praça e em salão, com corpo inteiro no trabalho, e sentado o texto perde metade da força.

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Linha do tempo

  1. 1893Vladímir Maiakóvski nasce na Geórgia, então parte do Império Russo.
  2. 1912Assina com outros poetas o manifesto Uma Bofetada no Gosto Público, o marco do futurismo russo.
  3. 1915Publica A Nuvem de Calças, o poema longo que fixa a dicção dele.
  4. 1917Adere à revolução e passa a trabalhar como poeta do novo regime.
  5. 1919Começa a produzir cartazes e legendas para a agência telegráfica estatal, trabalho gráfico que durou cerca de dois anos.
  6. 1923Adota a linha quebrada em degraus, formato que se tornaria a marca visual da obra.
  7. 1925Viaja ao México, aos Estados Unidos e a Cuba, e transforma a viagem em livro de crônicas e poemas.
  8. 1926Publica o estudo sobre a própria oficina, conhecido em português como Como Fazer Versos.
  9. 1930Morre em Moscou, em 14 de abril, aos 36 anos, por suicídio.
  10. 2001A obra em russo entra em domínio público no Brasil, setenta anos depois do ano seguinte à morte.

A rima calculada

Em 1926 ele publicou um estudo sobre a própria oficina, conhecido em português como Como Fazer Versos. O texto desmonta a fabricação de um poema dele mesmo, o dedicado a Serguei Iessiênin, escrito no mesmo ano.

A regra que ele descreve é simples de enunciar. A palavra que carrega o sentido vai para o fim do verso, e a rima é construída a partir dela. Quem ouve espera o som, e o som chega junto com a informação que importa.

O ritmo, no estudo, vem antes da palavra. Ele aparece primeiro como batida, ainda sem letra, e as palavras entram depois para ocupar um lugar que já estava medido.

Inspiração não entra na conta. O estudo trata poema como trabalho, com material, ferramenta, encomenda e prazo, e mostra as tentativas descartadas pelo caminho.

O poeta do regime e o desconforto que sobrou

A relação dele com o poder mudou de temperatura ao longo dos anos 1920, e conhecer a curva evita as duas leituras rasas que circulam.

No começo, o entusiasmo é sincero e produtivo. Ele põe o ofício a serviço da revolução, escreve cartaz, legenda e verso de encomenda, e defende em público a ideia de arte útil.

O fim é bem menos confortável. Nos últimos anos ele enfrentou críticas de grupos literários alinhados ao regime, dificuldades com viagens e censura, e as peças de teatro que escreveu no período trazem sátira contra a burocracia soviética, o alvo que ele já não podia atacar sem custo.

A morte, em abril de 1930, veio por suicídio, aos 36 anos, e nenhuma leitura política resolve sozinha o que se passou ali.

O epílogo tem ironia própria. Em 1935 Stálin declarou o poeta o melhor e mais talentoso da era soviética, e a declaração transformou a obra em matéria escolar obrigatória. Boris Pasternak comentou que aquela canonização forçada tinha sido a segunda morte dele, e a frase ficou.

Para quem lê hoje, a lição prática é de método: separe o poema de encomenda do poema de fôlego, e leia os dois sabendo qual é qual.

A tradução que não pode entrar aqui

Traduzir Maiakóvski é refazer. A rima dele é calculada e a rima não atravessa idioma, então quem traduz precisa inventar outra, em português, que faça o mesmo serviço no mesmo ponto do verso.

A palavra inventada é o segundo problema. Ele fabricava termos que não existiam em russo, e um termo inventado não tem equivalente em dicionário nenhum: o tradutor precisa fabricar outro, em português, com a mesma cara de novidade.

No Brasil o trabalho de referência é de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, reunido em Maiakóvski: Poemas, da editora Perspectiva. A primeira edição é dos anos 1960.

O original em russo é livre. A versão em português que a maioria dos leitores conhece, não, porque a tradução tem prazo próprio, contado da morte de cada tradutor. É a razão de esta página descrever a escada em vez de mostrar um poema traduzido.

Quem quiser o texto vai encontrá-lo em livraria e em biblioteca, na edição da Perspectiva, com o nome dos três tradutores na capa.

Por onde começar a ler

A obra é grande e desigual, com poema de amor ao lado de verso de encomenda política, e a entrada errada afasta o leitor.

A Nuvem de Calças, de 1915, é o começo natural. Poema longo, dividido em partes, escrito antes da revolução, com o amor recusado no centro e a dicção de quem grita já formada.

Os poemas de amor endereçados a Lília Brik vêm em seguida. São os textos em que a máquina do verso trabalha sobre assunto privado, e costumam surpreender quem chegou esperando só poesia de comício.

O poema sobre a morte de Serguei Iessiênin, de 1926, é o par certo para ler junto do estudo sobre a oficina, porque é justamente o poema desmontado por ele no livro.

A introdução ao poema que ficou inacabado, escrita em 1930, fecha a lista. É o texto em que ele se dirige aos leitores do futuro, e é o mais citado da obra em qualquer idioma.

Deixe os versos de propaganda e os cartazes para depois. Eles explicam o ofício, e não fazem boa primeira impressão para quem ainda não conhece a voz.

O corte que todo mundo já usou

Numa fila de padaria, alguém conta uma história e para no meio da frase antes da parte boa. A pausa segura a atenção de quem está em volta, e a última palavra chega limpa.

É o mesmo recurso da escada, sem página, sem tradução e sem direito autoral.

Perguntas frequentes

Quem foi Maiakóvski?

Poeta russo nascido na Geórgia em 1893 e morto em Moscou em 1930, aos 36 anos. Assinou o manifesto do futurismo russo em 1912, aderiu à revolução de 1917, escreveu poesia, peça de teatro, crônica de viagem e texto de cartaz.

Por que os versos dele são escritos em degraus?

Porque o desenho é notação de fala. A partir de 1923 ele passou a quebrar a linha em blocos deslocados para a direita, marcando onde a voz para, onde retoma e quanto dura o silêncio entre um bloco e outro.

O que é o livro Como Fazer Versos?

Um estudo de 1926 em que ele desmonta a fabricação de um poema próprio, o dedicado a Serguei Iessiênin. O texto trata poema como trabalho, com material, encomenda e prazo, e mostra as tentativas descartadas pelo caminho.

A obra dele está em domínio público?

O original em russo sim, no Brasil, desde 2001. As traduções não: cada tradução tem prazo próprio, contado da morte de quem traduziu, e as versões brasileiras mais conhecidas, dos anos 1960, seguem protegidas.

Qual a melhor tradução em português?

A de referência é o volume Maiakóvski: Poemas, da editora Perspectiva, com traduções de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, publicado pela primeira vez nos anos 1960 e reeditado desde então.

Por onde começar a ler?

Por A Nuvem de Calças, de 1915, depois pelos poemas de amor, em seguida pelo poema sobre a morte de Iessiênin lido junto do estudo sobre a oficina, e por fim pela introdução ao poema inacabado de 1930.

Ele era o poeta oficial da União Soviética?

Foi poeta engajado desde 1917 e escreveu muito material de encomenda, mas os últimos anos foram de atrito: críticas de grupos alinhados ao regime, problemas de censura e peças de teatro satirizando a burocracia. A canonização veio depois da morte, por declaração de Stálin em 1935.

Como declamar um poema dele?

Trate cada degrau como um bloco de fala, meça a pausa pelo tamanho do recuo, não deixe a voz cair no fim do degrau quando a frase continua e guarde o fôlego para a última palavra do bloco. Ensaie de pé.

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