O poema · Poeta
Maiakóvski: a escada de versos e o poema feito para a praça
Poetas · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
A poesia de Vladímir Maiakóvski é reconhecida antes de ser lida. A linha desce a página em degraus, e o desenho faz parte do texto.
A obra dele em russo está em domínio público no Brasil desde 2001, setenta anos contados a partir do primeiro dia do ano seguinte à morte, em 1930. As traduções brasileiras são outra história: cada tradução tem direito próprio, e as versões mais conhecidas por aqui, dos anos 1960, seguem protegidas. Por causa da regra, nenhum verso traduzido aparece nesta página.
O que dá para mostrar aqui é a máquina do verso, que continua funcionando em qualquer idioma.
A escada
A partir de 1923 ele passou a quebrar o verso em degraus. A linha se parte em pedaços, e cada pedaço começa mais para a direita, onde o pedaço anterior terminou.
O desenho não é enfeite gráfico. Ele marca a divisão da fala: onde a voz para, onde ela volta, quanto tempo dura o silêncio entre um bloco e outro. É notação, do mesmo jeito que a pausa escrita numa partitura.
Um exemplo montado aqui só para mostrar o formato, sem verso de ninguém:
a frase começa
depois desce um degrau
e cai no chão
Lido em silêncio, o corte parece capricho de página. Dito em voz alta, ele vira respiração, e a frase chega ao ouvinte em três golpes no lugar de um.
A escada também resolve um problema prático de quem lê em público. Ela mostra, de longe e no papel, onde o poeta vai respirar.
Quem abre Maiakóvski pela primeira vez costuma tropeçar na página e achar o formato arbitrário. O caminho curto é ler em voz alta logo na primeira tentativa, obedecendo ao degrau, porque a forma foi armada para o ouvido antes da vista.
O verso feito para a praça
Maiakóvski escrevia para ser ouvido, e o público não estava sentado. A leitura acontecia em fábrica, em clube operário, em comício, e o evento era a voz dele.
A forma responde ao lugar. Frase curta, palavra concreta, verbo forte, imagem que se entende na primeira passada. Em praça não existe segunda passada: quem não pegou o verso na hora perdeu o verso.
O grupo veio do futurismo russo. O manifesto de 1912, Uma Bofetada no Gosto Público, assinado por ele e por outros três poetas, propunha jogar Púchkin, Dostoiévski e Tolstói do navio da modernidade. A frase era provocação calculada, e serviu de porta de entrada para o que veio depois.
O trabalho dele não parou no livro. Ele escreveu texto de cartaz, legenda de desenho e verso de propaganda, com rima curta feita para ser lida de longe, na parede. Poesia, ali, tinha função de utilidade pública, e a mesma técnica servia para o comício e para o anúncio.
A rima calculada
Em 1926 ele publicou um estudo sobre a própria oficina, conhecido em português como Como Fazer Versos. O texto desmonta a fabricação de um poema dele mesmo, o dedicado a Serguei Iessiênin, escrito no mesmo ano.
A regra que ele descreve é simples de enunciar. A palavra que carrega o sentido vai para o fim do verso, e a rima é construída a partir dela. Quem ouve espera o som, e o som chega junto com a informação que importa.
O ritmo, no estudo, vem antes da palavra. Ele aparece primeiro como batida, ainda sem letra, e as palavras entram depois para ocupar um lugar que já estava medido.
Inspiração não entra na conta. O estudo trata poema como trabalho, com material, ferramenta, encomenda e prazo, e mostra as tentativas descartadas pelo caminho.
A tradução que não pode entrar aqui
Traduzir Maiakóvski é refazer. A rima dele é calculada e a rima não atravessa idioma, então quem traduz precisa inventar outra, em português, que faça o mesmo serviço no mesmo ponto do verso.
A palavra inventada é o segundo problema. Ele fabricava termos que não existiam em russo, e um termo inventado não tem equivalente em dicionário nenhum: o tradutor precisa fabricar outro, em português, com a mesma cara de novidade.
No Brasil o trabalho de referência é de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, reunido em Maiakóvski: Poemas, da editora Perspectiva. A primeira edição é dos anos 1960.
O original em russo é livre. A versão em português que a maioria dos leitores conhece, não, porque a tradução tem prazo próprio, contado da morte de cada tradutor. É a razão de esta página descrever a escada em vez de mostrar um poema traduzido.
Quem quiser o texto vai encontrá-lo em livraria e em biblioteca, na edição da Perspectiva, com o nome dos três tradutores na capa.
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O corte que todo mundo já usou
Numa fila de padaria, alguém conta uma história e para no meio da frase antes da parte boa. A pausa segura a atenção de quem está em volta, e a última palavra chega limpa.
É o mesmo recurso da escada, sem página, sem tradução e sem direito autoral.
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