O poema · Obra
O Navio Negreiro: as partes IV e V, onde a câmera desce para o porão
Obras · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
O Navio Negreiro tem seis partes, e quem cita o poema quase sempre cita a parte IV. Lido inteiro, o texto se revela montado como uma descida, de longe até dentro.
Ele está em Os Escravos, o livro póstumo de 1883 que juntou a poesia abolicionista de Castro Alves. Ele morreu em 1871, e a obra é de domínio público há muito tempo.
Esta página traz as partes IV e V na íntegra, as duas que a descida atinge. As outras quatro entram resumidas, para você saber de onde a câmera veio e para onde ela vai.
Seis partes, seis distâncias
A parte I fica longe: mar aberto, luar, dois infinitos se tocando, e o poeta pedindo asas ao albatroz para chegar mais perto.
A parte II olha para os marinheiros por nação, o espanhol, o italiano, o inglês, o francês, os gregos. Cada um canta a terra de onde veio, e ninguém canta o que o navio carrega.
A parte III é a dobradiça. O poeta manda o albatroz descer, desce junto, vê o convés e termina em espanto. A IV já começa dentro da cena.
A IV mostra o convés à noite. A V para de descrever e pergunta quem são aquelas pessoas. A VI vira a câmera de vez e aponta para a bandeira do Brasil, hasteada acima do que o poema acabou de mostrar.
Parte IV: o que aparece quando a câmera desce
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
A linha de pontos no meio da quarta estrofe está no impresso antigo e marca um corte, não é falha desta página.
A parte IV não narra: ela lista o que a vista alcança, em pedaços soltos ligados por reticências. Ferro, açoite, ronda, orquestra, chicote.
A palavra que organiza tudo é dançar. O que acontece ali é tortura, e o poema insiste em chamar de dança e de orquestra. A ironia não é comentada em verso nenhum, fica de pé só pela escolha das palavras.
A terceira estrofe ainda volta quase igual na sexta, e dessa vez fecha com Satanás no lugar do chicote.
Parte V: a pergunta que troca o assunto
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão...
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus...
...Adeus, ó choça do monte,
...Adeus, palmeiras da fonte!...
...Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer...
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
A parte V faz uma pergunta que a IV não fazia: quem são. E responde nomeando origem, ofício e nome próprio, Agar e Ismael, gente com passado e não vulto no convés.
O motor da resposta é um par de palavras repetido três vezes: ontem e hoje. Ontem simples, fortes, bravos; hoje míseros escravos. Ontem a Serra Leoa; hoje o porão. Ontem liberdade; hoje nem a morte é livre.
A estrofe de abertura volta no fim, com uma troca decisiva. Na primeira vez o poema pergunta se aquilo é loucura ou verdade. Na última, pergunta se quem delira é ele. A dúvida sai do mundo e entra em quem está olhando.
A métrica muda junto com o plano
As duas partes soam diferentes porque foram escritas em formas diferentes, e a diferença dá para ouvir sem saber nomear.
A IV é feita de estrofes de seis linhas com versos de dois tamanhos: duas linhas longas de dez sílabas, uma curta de seis, e a conta se repete. A linha curta é o degrau em que a estrofe cai, e é sempre nela que a imagem se completa: em sangue a se banhar, horrendos a dançar, e chora e dança ali.
A V troca para estrofes de dez linhas, todas de sete sílabas, a medida cantada da poesia popular. A linha encurta, a rima chega mais rápido, e o trecho ganha andamento de canto.
A escolha acompanha o assunto. O plano de fora, largo e descritivo, pede o verso longo. A hora de dizer quem são aquelas pessoas pede a estrofe que o povo canta.
A parte VI e o resto do poema
A sexta e última parte muda de alvo mais uma vez. Ela larga o navio e se vira para a bandeira brasileira, chamada de auriverde pendão, e pergunta como um pano daquele acaba servindo de mortalha num porão. O poeta pede a Colombo que feche a porta dos mares, e o poema termina em maldição, não em consolo.
A ordem completa fica assim: o mar aberto, os marinheiros, a descida do albatroz, o convés, a pergunta sobre quem são aquelas pessoas, e a bandeira. Seis partes, seis distâncias, sempre chegando mais perto.
Castro Alves escreveu o texto em 1868, com vinte e um anos, e morreu em 1871 sem ver o livro pronto. As partes I, II, III e VI estão em Os Escravos, edição de 1883, que hoje circula em domínio público e é fácil de achar completa.
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Na escola o poema costuma aparecer picado, uma estrofe na prova e outra no cartaz da semana. Lido inteiro, de uma sentada, ele leva uns dez minutos e termina com o leitor olhando para uma bandeira.
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