O poema · Poeta

Baudelaire: o albatroz, o spleen e o processo de 1857

Por Redação Poesia do Dia · Poetas · Leitura de 11 minutos

Um sino de mão pequeno de latão gasto sozinho numa mesa de madeira escura, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

As Flores do Mal saiu em 1857 e foi parar no tribunal no mesmo ano.

A acusação era ultraje à moral pública. O promotor se chamava Ernest Pinard, o mesmo que meses antes tinha acusado Flaubert por Madame Bovary. Flaubert foi absolvido. Baudelaire perdeu.

Seis poemas foram condenados e tiveram que sair do livro. A decisão só caiu em 1949, quando a corte francesa anulou a condenação.

Baudelaire morreu em 1867 e a obra dele está em domínio público. Com a tradução a história é outra, e o fim desta página explica por quê.

O albatroz que não anda no convés

O poema entrou na segunda edição do livro, a de 1861, e virou o desenho mais simples da tese inteira.

A cena é curta. Marinheiros capturam a ave grande em pleno mar, por diversão, e a soltam no convés. Em terra firme a mesma ave que domina o vento fica desengonçada, tropeça, arrasta as asas e vira motivo de riso da tripulação.

A última estrofe faz a comparação explícita.

Le Poète est semblable au prince des nuées

A linha compara o poeta ao príncipe das nuvens, e o poema fecha com a informação que interessa: as asas de gigante são exatamente o que impede a caminhada. A vantagem no ar é a desvantagem no chão, e é a mesma característica nos dois casos.

O que faz do albatroz o poema que sustenta o livro é a economia. Toda a distância entre o alto e o baixo, que ocupa centenas de páginas em outras chaves, cabe numa ave posta no lugar errado.

Spleen: o nome que ele deu ao peso

Spleen é a palavra inglesa para baço. A medicina antiga alojava ali a bile negra, o humor que fazia a pessoa pesada, e o nome do órgão virou nome do estado.

Baudelaire usou o título quatro vezes, em quatro poemas diferentes, todos dentro da seção que ele chamou de Spleen e Ideal. Repetir o título é uma declaração: o assunto não se resolve numa peça só.

Um deles começa pelo tempo.

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle

A frase põe o céu baixo e pesado apertando como tampa. A imagem padrão de liberdade vira tampa de panela, e o que estava aberto por cima passa a fechar. O spleen do livro é um dia inteiro fechado assim, e não uma tristeza com motivo declarado.

O par que organiza a seção faz o resto do trabalho. Spleen é o peso, Ideal é a subida, e o livro passa o tempo indo de um ao outro sem escolher morada.

A cidade vira assunto

Na edição de 1861 entrou uma seção nova, os Tableaux parisiens, os quadros parisienses. O que era cenário de fundo passou a ser matéria.

A rua entra com tudo o que tem: a multidão, a mulher que passa e não volta, o velho que se repete na esquina, a obra que derruba o quarteirão conhecido. Um dos poemas dessa seção observa que a forma de uma cidade muda mais depressa que o coração de quem mora nela, e a observação organiza a seção inteira.

Dois anos depois, no ensaio O Pintor da Vida Moderna (1863), ele fixou a definição que atravessou o século: o moderno é a metade transitória, fugidia e contingente da arte, e a outra metade continua eterna e imutável. A arte que interessa fica com as duas.

Daí sai a figura do observador que anda dentro da multidão sem se misturar a ela. É o mesmo sujeito do albatroz, mudado de lugar. No convés, ele atrapalhava a tripulação. Na calçada, ele passa despercebido e olha tudo.

1857: o processo e as seis peças condenadas

A acusação não mirou o livro inteiro. Um punhado de poemas foi ao banco dos réus, e o tribunal condenou seis deles.

Os seis condenados tratavam corpo e desejo de forma direta, e é essa a diferença entre eles e o restante. A violência moral de outras peças do livro passou sem problema, porque estava vestida.

A condenação teve efeito prático imediato: os seis foram suprimidos, e a edição de 1861 saiu sem eles, com poemas novos e uma seção nova no lugar. Em 1866, em Bruxelas, os textos proibidos foram reunidos no volume Les Épaves, fora do alcance da justiça francesa.

A reabilitação demorou. Em 1949 a Corte de Cassação anulou a condenação de 1857, e os seis poemas voltaram oficialmente ao livro. Entre a sentença e a anulação passaram quase cem anos, e nesse intervalo praticamente todo leitor francês leu uma versão incompleta.

Linha do tempo de Baudelaire

  1. 1821Charles Baudelaire nasce em Paris, em 9 de abril.
  2. 1841A família o embarca numa viagem ao oceano Índico, que ele interrompe antes do destino e que deixa marca no repertório de mar do livro.
  3. 1845Estreia em público como crítico de arte, com o texto sobre o salão daquele ano.
  4. 1856Publica a primeira reunião de contos de Edgar Allan Poe traduzidos por ele para o francês, trabalho que continuaria no ano seguinte.
  5. 1857Sai As Flores do Mal, e no mesmo ano vem o processo, com seis poemas condenados.
  6. 1861A segunda edição chega ampliada, sem os seis, com dezenas de poemas novos e a seção dos quadros parisienses.
  7. 1866Os textos proibidos saem em Bruxelas, no volume Les Épaves, fora do alcance da justiça francesa.
  8. 1867Baudelaire morre em Paris, em 31 de agosto, aos 46 anos.
  9. 1869Sai o livro póstumo de poemas em prosa, hoje conhecido como O Spleen de Paris.
  10. 1949A Corte de Cassação anula a condenação de 1857.

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O outro livro: os poemas em prosa

O trabalho da última década dele não tem verso nenhum, e é a parte da obra que menos gente lê.

São textos curtos de prosa, publicados soltos em jornal e reunidos em livro depois da morte, em 1869. A cena é sempre urbana: a viúva no parque, o pobre na porta do café, o velho saltimbanco sem plateia, o cachorro que prefere o cheiro sujo ao perfume caro.

O projeto está declarado na dedicatória do próprio autor. Ele descreve a ambição de uma prosa poética capaz de acompanhar os movimentos da alma sem métrica e sem rima, flexível o bastante para caber nos solavancos da cidade grande.

Trocar o verso pela prosa não é rebaixar a poesia, é mudar de ferramenta. O poema em verso organiza o tempo do leitor pela batida; o poema em prosa organiza pelo corte de cena, mais perto do jeito como a rua chega de fato aos olhos de quem anda nela.

A descendência é longa. Boa parte da prosa poética do século 20, incluindo a crônica urbana brasileira, herda dessa forma a liberdade de tratar assunto pequeno com atenção grande.

Vale notar o encaixe com a outra ponta da obra dele. Baudelaire passou anos traduzindo Poe para o francês, e Poe é justamente o autor que descreveu a poesia como cálculo, no ensaio que esta biblioteca destrincha em O Corvo. O poeta do acaso da rua estudou o método com o poeta da régua.

Por onde começar a ler As Flores do Mal

O livro tem centenas de páginas e uma arquitetura em seções, o que assusta quem abre na primeira página e tenta ler em ordem.

A ordem do sumário não é a melhor entrada. Ela leva a sério o percurso do peso ao ideal, e o leitor de primeira viagem se cansa antes de chegar à parte urbana, que é a mais próxima da experiência de hoje.

O caminho curto começa pelo albatroz, que resume a tese em quatro estrofes. Depois vale o poema das correspondências, onde cheiro, cor e som se respondem, porque ele explica o mecanismo de imagem que o livro inteiro usa.

Em seguida, pule para os quadros parisienses. É a seção da cidade, e ali está o encontro de rua com a desconhecida que passa e não volta, o poema que qualquer pessoa que já pegou metrô entende sem nota de rodapé.

Deixe os quatro poemas de mesmo título para o fim, e leia os quatro na sequência, de uma sentada. O efeito de repetição é intencional, e só aparece quando eles são lidos juntos.

Uma advertência de leitura, para não transformar o livro em curiosidade de escândalo: os seis poemas condenados em 1857 são hoje a parte menos interessante do volume para leitor de primeira viagem. O que sustenta o livro é a cidade, não o processo.

Como ler em português sem tropeçar no direito

O original é livre desde muito tempo. A tradução tem direito próprio e mais novo, e a confusão entre as duas coisas produz a maior parte dos problemas.

O raciocínio é direto. Um poema publicado em 1857 pode estar em domínio público enquanto a tradução brasileira dele, feita nos anos 1980, segue protegida por décadas. Copiar um poema traduzido para um site não é copiar Baudelaire, é copiar quem traduziu.

Como conferir: a folha de rosto traz o nome do tradutor e o ano da tradução. A conta é a mesma da lei brasileira, contada a partir da morte do tradutor, jamais a partir da morte do poeta.

E quando a versão em português importa de verdade: os quatro poemas com o mesmo título ficam parecidos ou distintos conforme a decisão de quem traduziu. Ler duas traduções lado a lado mostra a decisão na cara, e é o exercício mais barato de leitura comparada que existe.

As citações desta página estão no francês original, que é livre, e o comentário em português ao lado é explicação de serviço, sem pretensão de substituir tradução literária nenhuma.

Numa calçada de cidade grande no fim da tarde a cena do albatroz acontece sem poema nenhum. Alguém para no meio do fluxo, olha para cima por qualquer motivo, e atrapalha a passagem de todo mundo até decidir para onde ia.

Perguntas frequentes

Quem foi Charles Baudelaire?

Poeta e crítico de arte francês, nascido em Paris em 1821 e morto na mesma cidade em 1867, aos 46 anos. Publicou As Flores do Mal em 1857, traduziu Edgar Allan Poe para o francês e deixou um livro de poemas em prosa publicado depois da morte.

Por que As Flores do Mal foi condenado?

Por ultraje à moral pública, em processo movido no mesmo ano da publicação. O promotor foi Ernest Pinard, o mesmo que meses antes tinha acusado Flaubert por Madame Bovary. Flaubert foi absolvido; Baudelaire perdeu, e seis poemas saíram do livro.

O que significa spleen?

É a palavra inglesa para baço, órgão onde a medicina antiga alojava a bile negra, responsável pelo temperamento pesado. Baudelaire usou o termo como título de quatro poemas para nomear um peso sem motivo declarado, diferente da tristeza que tem causa.

Quantas edições de As Flores do Mal existem?

Duas em vida. A de 1857, condenada no tribunal, e a de 1861, ampliada, sem os seis poemas proibidos e com a seção nova dos quadros parisienses. Em 1866, os textos suprimidos saíram em Bruxelas, no volume Les Épaves.

Quando os poemas proibidos voltaram ao livro?

Em 1949, quando a Corte de Cassação francesa anulou a condenação de 1857. Entre a sentença e a anulação passaram quase cem anos, período em que praticamente todo leitor francês conheceu uma versão incompleta do volume.

Posso publicar um poema de Baudelaire traduzido no meu site?

Depende do tradutor, não do poeta. O original francês está em domínio público desde muito tempo, mas cada tradução tem direito próprio, contado a partir da morte de quem traduziu. Copiar um poema traduzido é copiar o tradutor.

Por onde começar a ler Baudelaire?

Pelo albatroz, que resume a tese do livro em quatro estrofes, depois pelo poema das correspondências, que explica o mecanismo de imagem, e em seguida pela seção dos quadros parisienses, a parte urbana e a mais próxima da experiência de quem lê hoje.

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