O poema · Poeta

Baudelaire: o albatroz, o spleen e o processo de 1857

Poetas · Leitura de 5 minutos

Um sino de mão pequeno de latão gasto sozinho numa mesa de madeira escura, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

As Flores do Mal saiu em 1857 e foi parar no tribunal no mesmo ano.

A acusação era ultraje à moral pública. O promotor se chamava Ernest Pinard, o mesmo que meses antes tinha acusado Flaubert por Madame Bovary. Flaubert foi absolvido. Baudelaire perdeu.

Seis poemas foram condenados e tiveram que sair do livro. A decisão só caiu em 1949, quando a corte francesa anulou a condenação.

Baudelaire morreu em 1867 e a obra dele está em domínio público. Com a tradução a história é outra, e o fim desta página explica por quê.

O albatroz que não anda no convés

O poema entrou na segunda edição do livro, a de 1861, e virou o desenho mais simples da tese inteira.

A cena é curta. Marinheiros capturam a ave grande em pleno mar, por diversão, e a soltam no convés. Em terra firme a mesma ave que domina o vento fica desengonçada, tropeça, arrasta as asas e vira motivo de riso da tripulação.

A última estrofe faz a comparação explícita.

Le Poète est semblable au prince des nuées

A linha compara o poeta ao príncipe das nuvens, e o poema fecha com a informação que interessa: as asas de gigante são exatamente o que impede a caminhada. A vantagem no ar é a desvantagem no chão, e é a mesma característica nos dois casos.

O que faz do albatroz o poema que sustenta o livro é a economia. Toda a distância entre o alto e o baixo, que ocupa centenas de páginas em outras chaves, cabe numa ave posta no lugar errado.

Spleen: o nome que ele deu ao peso

Spleen é a palavra inglesa para baço. A medicina antiga alojava ali a bile negra, o humor que fazia a pessoa pesada, e o nome do órgão virou nome do estado.

Baudelaire usou o título quatro vezes, em quatro poemas diferentes, todos dentro da seção que ele chamou de Spleen e Ideal. Repetir o título é uma declaração: o assunto não se resolve numa peça só.

Um deles começa pelo tempo.

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle

A frase põe o céu baixo e pesado apertando como tampa. A imagem padrão de liberdade vira tampa de panela, e o que estava aberto por cima passa a fechar. O spleen do livro é um dia inteiro fechado assim, e não uma tristeza com motivo declarado.

O par que organiza a seção faz o resto do trabalho. Spleen é o peso, Ideal é a subida, e o livro passa o tempo indo de um ao outro sem escolher morada.

A cidade vira assunto

Na edição de 1861 entrou uma seção nova, os Tableaux parisiens, os quadros parisienses. O que era cenário de fundo passou a ser matéria.

A rua entra com tudo o que tem: a multidão, a mulher que passa e não volta, o velho que se repete na esquina, a obra que derruba o quarteirão conhecido. Um dos poemas dessa seção observa que a forma de uma cidade muda mais depressa que o coração de quem mora nela, e a observação organiza a seção inteira.

Dois anos depois, no ensaio O Pintor da Vida Moderna (1863), ele fixou a definição que atravessou o século: o moderno é a metade transitória, fugidia e contingente da arte, e a outra metade continua eterna e imutável. A arte que interessa fica com as duas.

Daí sai a figura do observador que anda dentro da multidão sem se misturar a ela. É o mesmo sujeito do albatroz, mudado de lugar. No convés, ele atrapalhava a tripulação. Na calçada, ele passa despercebido e olha tudo.

1857: o processo e as seis peças condenadas

A acusação não mirou o livro inteiro. Um punhado de poemas foi ao banco dos réus, e o tribunal condenou seis deles.

Os seis condenados tratavam corpo e desejo de forma direta, e é essa a diferença entre eles e o restante. A violência moral de outras peças do livro passou sem problema, porque estava vestida.

A condenação teve efeito prático imediato: os seis foram suprimidos, e a edição de 1861 saiu sem eles, com poemas novos e uma seção nova no lugar. Em 1866, em Bruxelas, os textos proibidos foram reunidos no volume Les Épaves, fora do alcance da justiça francesa.

A reabilitação demorou. Em 1949 a Corte de Cassação anulou a condenação de 1857, e os seis poemas voltaram oficialmente ao livro. Entre a sentença e a anulação passaram quase cem anos, e nesse intervalo praticamente todo leitor francês leu uma versão incompleta.

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Como ler em português sem tropeçar no direito

O original é livre desde muito tempo. A tradução tem direito próprio e mais novo, e a confusão entre as duas coisas produz a maior parte dos problemas.

O raciocínio é direto. Um poema publicado em 1857 pode estar em domínio público enquanto a tradução brasileira dele, feita nos anos 1980, segue protegida por décadas. Copiar um poema traduzido para um site não é copiar Baudelaire, é copiar quem traduziu.

Como conferir: a folha de rosto traz o nome do tradutor e o ano da tradução. A conta é a mesma da lei brasileira, contada a partir da morte do tradutor, jamais a partir da morte do poeta.

E quando a versão em português importa de verdade: os quatro poemas com o mesmo título ficam parecidos ou distintos conforme a decisão de quem traduziu. Ler duas traduções lado a lado mostra a decisão na cara, e é o exercício mais barato de leitura comparada que existe.

As citações desta página estão no francês original, que é livre, e o comentário em português ao lado é explicação de serviço, sem pretensão de substituir tradução literária nenhuma.

Numa calçada de cidade grande no fim da tarde a cena do albatroz acontece sem poema nenhum. Alguém para no meio do fluxo, olha para cima por qualquer motivo, e atrapalha a passagem de todo mundo até decidir para onde ia.

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