O poema · Obra

Amor é fogo que arde sem se ver: o soneto inteiro e a mecânica da contradição

Obras · Leitura de 5 minutos

Um fósforo de madeira queimado até a metade sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de fim de tarde que entra pela esquerda, com sombra longa esticando pra direita, fundo breu de estante e vinho como única cor viva

O soneto mais citado da língua portuguesa não conta uma história e não descreve ninguém. Ele passa onze versos tentando definir uma palavra, e falha de propósito em cada tentativa.

Luís de Camões morreu em 1580 e o texto está em domínio público. Ele entra aqui inteiro, com a quebra de linha do original, e depois vem a conta de como o poema foi armado.

O soneto inteiro

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Onze definições que se desmentem

Conte os começos de verso. Do primeiro ao décimo primeiro, cada linha abre com o verbo ser e promete uma definição: é fogo, é ferida, é contentamento, é dor, é não querer, é andar, é nunca contentar-se, é cuidar, é querer, é servir, é ter.

Nenhuma delas fecha. A cada definição, a segunda metade do verso derruba a primeira. O fogo arde sem se ver, a ferida dói e não se sente, o contentamento é descontente, a dor desatina sem doer.

A figura tem nome, oxímoro, e o nome importa menos do que o efeito na leitura em voz alta. Cada verso obriga quem lê a mudar de direção no meio da linha, e a respiração acompanha.

O truque se repete tantas vezes que vira estrutura. Um poema com um oxímoro tem uma imagem de efeito. Um poema com onze seguidos está dizendo outra coisa: que a palavra amor não aceita definição, e que a lista pode continuar sem chegar a lugar nenhum.

O verso é o decassílabo, dez sílabas contadas até a última tônica, com a batida caindo quase sempre na sexta e na décima. No primeiro verso a sexta cai em arde, exatamente onde a definição começa a se desmentir.

Repare também no que o soneto não traz. Nenhum nome, nenhum rosto, nenhuma cena e nenhuma promessa. A palavra Amor aparece na primeira linha e volta na última, e entre as duas o poema fala de uma coisa só, sem endereçar a ninguém. A ausência de endereço é o que deixa o soneto servir em altar, em velório e em bilhete de gaveta sem precisar de ajuste. O texto descreve o sentimento por fora, como quem examina, e cada leitor entra com o nome, a lembrança e a ocasião que tiver em mãos.

Os dois quartetos contra os dois tercetos

O soneto tem catorze versos em quatro estrofes: quatro, quatro, três, três. As rimas amarram os dois primeiros blocos num só desenho, ver, sente, descontente, doer, e depois querer, gente, contente, perder.

Os oito primeiros versos definem o amor por dentro, pelo que ele faz com quem sente. Fogo, ferida, dor, contentamento: tudo acontece dentro de uma pessoa só.

Nos tercetos a definição muda de terreno. Preso por vontade, servir a quem vence, lealdade a quem mata: os três versos falam de relação entre duas partes, com alguém mandando e alguém obedecendo.

A contradição continua a mesma, o assunto é que cresceu. Ela sai do peito e vira um arranjo entre pessoas, o que prepara a pergunta do fim.

A chave de ouro é uma pergunta

A última linha de um soneto costuma cravar a conclusão, e essa é a função que a tradição chama de chave de ouro. Aqui a chave abre em vez de fechar.

Os três versos finais viram de assunto com um Mas e param de afirmar. Eles perguntam como o amor consegue produzir amizade entre pessoas se o próprio amor vive em desacordo consigo mesmo.

O poema gasta onze versos dizendo o que o amor é e usa os três últimos para admitir que a soma não fecha. Quem lê em voz alta sente a diferença: a voz sobe no fim, porque a frase termina em interrogação.

De onde vem o texto

Camões não viu o soneto impresso. A lírica dele saiu depois da morte, nas Rimas, e este soneto aparece na segunda edição do livro, de 1598. A coleção foi montada a partir de manuscritos que circulavam soltos, e é daí que vêm as diferenças entre uma edição e outra.

O caso é visível. As Obras completas de Luís de Camões de 1843, no volume II, imprimem o sétimo verso assim:

É um não contentar-se de contente;

E fecham o soneto de outro jeito:

Mas como causar pode o seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

O sentido é próximo e o som é outro. A versão que circula hoje nas escolas e nas antologias é a que está no alto desta página, e ela segue as Rimas com o texto fixado por Álvaro J. da Costa Pimpão, em Coimbra, pela Almedina.

Quem for gravar o soneto, decorar ou ler numa cerimônia faz bem em conferir qual edição está copiando. As duas são legítimas, e misturar as duas na mesma leitura é o único erro possível aqui.

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Numa mesa de bar, alguém sempre começa a recitar o primeiro verso e trava no terceiro. O soneto é curto, cabe num papel dobrado dentro da carteira, e a parte difícil de decorar nunca é o começo.

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